Sobre nós


O blog “Falando do B” tem como objetivo resgatar a história de um grande sucesso do Jornal do Brasil, o Caderno B. Os alunos da FACHA (Méier) desejam mostrar o início desse suplemento, a sua fase áurea, os grandes escritores e jornalistas que trabalharam no caderno e o quanto ele foi importante, visto que inaugurou uma área cultural até então inexplorada pelo jornalismo brasileiro. Os cadernos culturais se transformaram em objeto de desejo da maioria dos jornais depois de sua criação. O Caderno B foi o pioneiro e até hoje nós podemos curtir esse trabalho diariamente no JB.

terça-feira, 5 de maio de 2009

A ultima crônica,essa de Drummond

Em 1984, três anos antes de morrer, o poeta Carlos Drummond de Andrade publica sua ultima crônica no JB.Antes, despede-se do editor M.F.Nascimento Brito, com a frase :
"Sinto que é hora de descansar.."

Ciao

Há 64 anos, um adolescente fascinado por papel impresso notou que, no andar térreo do prédio onde morava, um placar exibia a cada manhã a primeira página de um jornal modestíssimo, porém jornal. Não teve dúvida. Entrou e ofereceu os seus serviços ao diretor, que era, sozinho, todo o pessoal da redação. O homem olhou-o, cético, e perguntou:
― Sobre o que pretende escrever?
― Sobre tudo. Cinema, literatura, vida urbana, moral, coisas deste mundo e de qualquer outro possível.

O diretor, ao perceber que alguém, mesmo inepto, se dispunha a fazer o jornal para ele, praticamente de graça, topou. Nasceu aí, na velha Belo Horizonte dos anos 20, um cronista que ainda hoje, com a graça de Deus e com ou sem assunto, comete as suas croniquices.

Comete é tempo errado de verbo. Melhor dizer: cometia. Pois chegou o momento deste contumaz rabiscador de letras pendurar as chuteiras (que na prática jamais calçou) e dizer aos leitores um ciao-adeus sem melancolia, mas oportuno.

Creio que ele pode gabar-se de possuir um título não disputado por ninguém: o de mais velho cronista brasileiro. Assistiu, sentado e escrevendo, ao desfile de 11 presidentes da República, mais ou menos eleitos (sendo um bisado), sem contar as altas patentes militares que se atribuíram esse título. Viu de longe, mas de coração arfante, a Segunda Guerra Mundial, acompanhou a industrialização do Brasil, os movimentos populares frustrados mas renascidos, os ismos de vanguarda que ambicionavam reformular para sempre o conceito universal de poesia; anotou as catástrofes, a Lua visitada, as mulheres lutando a braço para serem entendidas pelos homens; as pequenas alegrias do cotidiano, abertas a qualquer um, que são certamente as melhores.

Viu tudo isso, ora sorrindo ora zangado, pois a zanga tem seu lugar mesmo nos temperamentos mais aguados. Procurou extrair de cada coisa não uma lição, mas um traço que comovesse ou distraísse o leitor, fazendo-o sorrir, se não do acontecimento, pelo menos do próprio cronista, que às vezes se torna cronista do seu umbigo, ironizando-se a si mesmo antes que outros o façam.

Crônica tem essa vantagem: não obriga ao paletó-e-gravata do editorialista, forçado a definir uma posição correta diante dos grandes problemas; não exige de quem a faz o nervosismo saltitante do repórter, responsável pela apuração do fato na hora mesma em que ele acontece; dispensa a especialização suada em economia, finanças, política nacional e internacional, esporte, religião e o mais que imaginar se possa. Sei bem que existem o cronista político, o esportivo, o religioso, o econômico etc., mas a crônica de que estou falando é aquela que não precisa entender de nada ao falar de tudo. Não se exige do cronista geral a informação ou comentários precisos que cobramos dos outros. O que lhe pedimos é uma espécie de loucura mansa, que desenvolva determinado ponto de vista não ortodoxo e não trivial e desperte em nós a inclinação para o jogo da fantasia, o absurdo e a vadiação de espírito. Claro que ele deve ser um cara confiável, ainda na divagação. Não se compreende, ou não compreendo, cronista faccioso, que sirva a interesse pessoal ou de grupo, porque a crônica é território livre da imaginação, empenhada em circular entre os acontecimentos do dia, sem procurar influir neles. Fazer mais do que isso seria pretensão descabida de sua parte. Ele sabe que seu prazo de atuação é limitado: minutos no café da manhã ou à espera do coletivo.

Com esse espírito, a tarefa do croniqueiro estreado no tempo de Epitácio Pessoa (algum de vocês já teria nascido nos anos a.C. de 1920? duvido) não foi penosa e valeu-lhe algumas doçuras. Uma delas ter aliviado a amargura de mãe que perdera a filha jovem. Em compensação alguns anônimos e inominados o desancaram, como a lhe dizerem: “É para você não ficar metido a besta, julgando que seus comentários passarão à História”. Ele sabe que não passarão. E daí? Melhor aceitar as louvações e esquecer as descalçadeiras.

Foi o que esse outrora-rapaz fez ou tentou fazer em mais de seis décadas. Em certo período, consagrou mais tempo a tarefas burocráticas do que ao jornalismo, porém jamais deixou de ser homem de jornal, leitor implacável de jornais, interessado em seguir não apenas o desdobrar das notícias como as diferentes maneiras de apresentá-las ao público. Uma página bem diagramada causava-lhe prazer estético; a charge, a foto, a reportagem, a legenda bem feitas, o estilo particular de cada diário ou revista eram para ele (e são) motivos de alegria profissional. A duas grandes casas do jornalismo brasileiro ele se orgulha de ter pertencido ― o extinto Correio da Manhã, de valente memória, e o Jornal do Brasil, por seu conceito humanístico da função da Imprensa no mundo. Quinze anos de atividade no primeiro e mais 15, atuais, no segundo, alimentarão as melhores lembranças do velho jornalista.

E é por admitir esta noção de velho, consciente e alegremente, que ele hoje se despede da crônica, sem se despedir do gosto de manejar a palavra escrita, sob outras modalidades, pois escrever é sua doença vital, já agora sem periodicidade e com suave preguiça. Ceda espaço aos mais novos e vá cultivar o seu jardim, pelo menos imaginário.

Aos leitores, gratidão, essa palavra-tudo.(Jornal do Brasil, 29/09/1984)

Obrigado, Henrique!

Gostaria de agradecer ao Henrique Ruffato pelo interesse e pelas informações cedidas. Não há dúvidas quanto à contribuição, pois para nós é extremamente enriquecedor saber um pouco mais sobre o dia a dia, o funcionamento e os integrantes da equipe do JB naquela época. Se puder nos contar mais curiosidades, informações e detalhes da dinâmica e dos profissionais do antigo Caderno B, melhor ainda!
Colegas de jornal do Henrique, contribuam também!

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Nosso pedido de contribuição já obteve sucesso!

"Sou do tempo de Zuenir Ventura, Artur Xexéu, João máximo e Joaquim Ferreira dos Santos. Todos editores do caderno B na década 80 e 90. Trabalhei no JB ao lado dos cartunistas Aliedo, Ique entre tantos outros na editoria de Arte do JB. O endereço era Av. Brasil 500 no bairro de São Cristovão. A redação do Caderno B e da Editoria de arte e todas as outras editorias ocupavam todo o 6º andar. Na minha opinião quem na verdade deu SANGUE NOVO ao caderno de Entretenimento foram: Artur Xexéu e Joaquim Ferreira dos Santos, tanto que também passaram pela editoria do Caderno de Domingo um encarte colorido com matérias de moda, costume e comportamento.
No mais acredito ter colaborado um pouco."
Henrique Ruffato.

Queremos contribuições

Estamos fazendo um trabalho sobre o Caderno B do Jornal do Brasil e
gostaríamos de sugestões ou materiais que possam acrescentar em nossa
pesquisa.
Nosso trabalho tem o objetivo de explorar o início do Caderno B desde
sua origem até os dias de hoje e suas transformações ao longo dos
anos.
Qualquer ajuda será bem-vinda para a divulgação do sucesso que foi
esse caderno nas décadas de 60 e 70, época em que a maioria dos
jovens carregava um exemplar embaixo do braço.
Agradecemos a colaboração de todos.
Alunos de Jornalismo da FACHA.

Vai, Carlos, ser gauche na eternidade

Affonso Romano de SantAnna escreveu alguns textos sobre o grande poeta Carlos Drummond de Andrade. Em um deles, Sant'Anna comenta sobre quando redigiu o obituário de Drummond:
Sensação realmente estranha, estapafúrdia, ambígua e perfeitamente normal, tive poucos dias antes da morte do poeta. Ele já estivera internado antes da morte de Maria Julieta. E a imprensa, prevendo que ele poderia morrer a qualquer momento, adiantava o obituário. É assim que a imprensa trabalha. Os jornais, para não serem pegos de surpresa, guardam obituários dos eminentes e iminentes candidatos à morte. Ora, eu havia substituído Drummond como cronista no Jornal do Brasil, e lá, Zuenir Ventura, que então chefiava o Caderno B, pediu que fizesse um ensaio sobre o poeta, porque ele poderia morrer a qualquer hora. Estranha, estapafúrfia, ambígua e perfeitamente normal a situação. Ele, vivo no seu apartamento, e eu, no meu, escrevendo o texto para após sua morte. No entanto, Drummond se restabelece e o que acontece é a morte de Maria Julieta de entremeio. Encontro-me com ele no velório da filha. Ele vivo, ali, na minha frente, e o jornal já com o meu texto sobre ele morto, não se sabia para quando. Pensei que deveria dar para ele ler. Acho que ele ia achar até engraçado. Ler vivo o que sobre ele se publicaria depois de morto. Após sua morte, um dia recebo o telefonema de uma ex-aluna, dizendo-me que Drummond aparecera numa sessão espírita e que havia mandado dois recados. Ouvi-os atentamente. Um era para Dona Dolores: que dissesse a ela para não se preocupar, porque ele estava muito bem. Quanto a mim, dizia a amiga espírita, ele mandava dizer que o que mais gostara fora o título daquele meu texto que o jornal publicara: “Vai, Carlos, ser gauche na eternidade”. Como se vê, do outro lado, ele continuava atento, atencioso e bem-humorado.
Por Priscilla Diniz

As pipocas de Drummond

Carlos Drummond de Andrade escreveu no Jornal do Brasil de 1969 até 1984, vivendo grandes momentos no Caderno B com suas crônicas. Entre 1979 e 1981, ele publicou as suas famosas 'pipocas', que nada mais eram do que frases curtas que continham uma crítica muito bem contextualizada com o Brasil daquela época.
Em 1981, Drummond e Ziraldo publicaram o livro 'O pipoqueiro da Esquina' (Círculo do Livro, 1981), no qual algumas dessas pipocas publicadas no JB vêm acompanhadas pelo traço do famoso desenhista Ziraldo.



Curiosidades do B

Alberto Dines conta que nos dois momentos em que trabalhou com Clarice Lispector, ela teve sempre total autonomia sobre as atividades que exerceu: “A verdade é que nunca editei Clarice Lispector – nenhum colunista era de fato ‘editado’ no Jornal do Brasil. Uma vez ela mandou para o JB uma crônica sem uma abertura de parágrafo. Assim foi publicada.”