Sobre nós


O blog “Falando do B” tem como objetivo resgatar a história de um grande sucesso do Jornal do Brasil, o Caderno B. Os alunos da FACHA (Méier) desejam mostrar o início desse suplemento, a sua fase áurea, os grandes escritores e jornalistas que trabalharam no caderno e o quanto ele foi importante, visto que inaugurou uma área cultural até então inexplorada pelo jornalismo brasileiro. Os cadernos culturais se transformaram em objeto de desejo da maioria dos jornais depois de sua criação. O Caderno B foi o pioneiro e até hoje nós podemos curtir esse trabalho diariamente no JB.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Como tudo começou...

O "Caderno B" do Jornal do Brasil – inventado por Reynaldo Jardim em meados dos anos 1950 – foi uma síntese do que hoje se chama "jornalismo cultural". Começou reunindo as magníficas sobras do dia anterior e aos poucos transformou-se num caderno de cultura.
Não era um suplemento literário, ensaístico, como os do Estado de S. Paulo, do Correio da Manhã e Diário de Notícias, montados em cima de rodapés assinados pelos "nomões" da crítica literária na boa tradição do feuilleton europeu. O "B" era uma pausa para o jornalismo de qualidade, grandes fotos, textos esmerados completos, grandes entrevistas, resenhas estimulantes, pausa para o prazer de ler e o dever de pensar.

Alberto Dines e sua coragem!

Alberto Dines esteve por 12 anos à frente da Redação do JB, tendo assumido pela primeira vez o cargo de editor em janeiro de 1962. Numa época de ditadura militar e censura aos órgãos de comunicação, Dines comandava o jornal em pelo menos dois momentos históricos: em dezembro de 1968, após a decretação do AI-5, mandou para as bancas uma edição marcada por ironias e linguagens figuradas; e, em 1973, driblou os censores mais uma vez, noticiando de forma original o golpe militar no Chile.
A morte de Salvador Allende (12/09/1973)Uma das mais importantes páginas do jornalismo nacional foi escrita em 12 de setembro de 1973, quando Alberto Dines chefiava a redação do JORNAL DO BRASIL. Na véspera, em Santiago, no Chile, eclodia o golpe contra o governo do presidente Salvador Allende, que foi achado morto num dos gabinetes do Palácio de La Moneda - e a partir daí a ditadura de Augusto Pinochet se instalaria de vez no país. Os censores brasileiros, que na época exerciam seu controle nas redações dos jornais através de bilhetinhos ou telefonemas, haviam determinado ao JB que a notícia da morte de Allende não tivesse nenhum destaque na primeira página. Nada de títulos garrafais, muito menos fotos abertas em várias colunas. Pois bem. Uma solução teria que ser encontrada, o jornal tinha que driblar de algum jeito a imposição da censura. Fez-se então uma primeira página sem manchete alguma, sem uma fotografia sequer, só com texto - as letras, de corpo 24, eram as maiores que os equipamentos da época permitiam. Ou seja: além do tradicional L de anúncios classificados, a morte do presidente chileno era o único assunto da primeira página do jornal. O impacto foi grande, muito maior do que qualquer título ou chamada teria. Uma edição que já foi descrita como uma das mais subversivas da história do jornal. Nas linhas finais do texto era descrito o trabalho do enviado especial do JB a Santiago, Humberto Vasconcelos, "que assistiu aos últimos momentos do governo Allende e destacou que os esquerdistas foram tomados de surpresa com a ação militar, que pôs fim a 41 anos de normalidade constitucional no Chile."

sábado, 9 de maio de 2009

1980 - Cartola, um vazio se fez no samba



Para homenagear Cartola, Carlos Drummond de Andrade escreveu, no Caderno B, a crônica "No moinho do mundo": a história do homem simples que encantou por seu jeito de lidar com as situações da vida. Cartola leu a homenagem no hospital e pediu que fixassem o jornal na parede de seu leito. A crônica foi publicada três dias antes de sua morte.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Sempre o Zózimo

As tiradas do Zózimo são demais, sempre irreverente, ele lançou essa em 1987:
QUEM CHEGA (9/3/1987) - Zózimo Barrozo Do Amaral

"Amanheceu ontem no aeroporto internacional do Rio, chegando de Nova Iorque, o comediante Jô Soares.
"Chamava grande atenção no salão da alfândega pelo porte - o próprio e o de sua bagagem."

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Curiosidades do B

O Caderno B do Jornal do Brasil, surgido no início da década de 60, foi o primeiro suplemento de cultura brasileiro. O informativo cultural possuía tanto prestígio a ponto de popularizar o uso de estrelinhas para a cotação de lançamentos ― filmes, peças de teatro e discos ―, e lançar modismos, tais quais os termos “mauricinho” e “patricinha” para se referir à juventude rica.
Na década de 70, o caderno tentava burlar a censura imposta pela Ditadura Militar, publicando notícias de personalidades vetadas, através da utilização de pseudônimos, como conta a jornalista Maria Lúcia Rangel: “Nós tínhamos um caderno preto, imposto pelos censores, com nomes que não podiam ser citados. Um deles era o Chico Buarque - tanto que entrevistei Julinho da Adelaide, nome que ele inventou para poder falar de sua obra na imprensa”.

Homem de Idéias

Artigo publicado originalmente por Alvaro Costa e Silva e Paulo Celso Pereira em 31/12/2004.
Publicado no Caderno B do Jornal do Brasil, 26 de dezembro de 2004.
"Ferreira Gullar é o Homem de Idéias de 2004. Aos 74 anos, o poeta foi lembrado pela relevância e extensão de sua obra e por sua posição política. Aos 74 anos, o maranhense Ferreira Gullar - um dos mais importantes poetas brasileiros, além de crítico de arte combativo, dramaturgo e jornalista - é o Homem de Idéias 2004. Em eleição de que participaram alguns dos escolhidos de anos anteriores - como o crítico literário Antonio Candido, o arquiteto Oscar Niemeyer, o cientista social Luís Eduardo Soares, o filósofo Leandro Konder, o sociólogo Francisco de Oliveira, o historiador José Murilo de Carvalho e o escritor Luiz Fernando Verissimo -, Gullar recebeu a maioria dos votos, superando o economista Carlos Lessa, o escritor Ruy Castro e a professora Alba Zaluar.
- A poesia é uma invenção, e, por isso, às vezes um poeta é mais ouvido. Pois o que ele escreve corresponde de uma maneira mais ampla ao sentimento das pessoas - afirma ele na entrevista da página B3 desta edição especial do Caderno B - Idéias & Livros.
Oscar Niemeyer, um velho amigo e militante dos tempos do Partidão (como era conhecido o Partido Comunista Brasileiro), abriu a campanha em favor de Gullar com poucas palavras. Mas palavras de ordem: - Ele é um sujeito correto, um homem de esquerda, um grande poeta e um bom camarada. Ao longo de 2004, a editora José Olympio deu início ao projeto de relançar toda a obra de Gullar (revista pelo autor e com esmerado projeto gráfico), publicando uma nova edição de Na vertigem do dia e outra de A luta corporal, em comemoração aos 50 anos do livro. E a Global mandou para as livrarias a 7ª edição da antologia Melhores poemas de Ferreira Gullar, organizada pelo crítico literário Alfredo Bosi. É com base nessas reedições que Leandro Konder justificou seu voto: - Os poemas dele foram reunidos e tornados acessíveis. E tiveram um eco surpreendente, sobretudo na nova geração, que reagiu bem aos poemas. Completando a ala dos votantes em Gullar, Antônio Cândido o escolheu por ser ''um poeta muito significativo'' e José Murilo de Carvalho ressaltou a importância de sua obra poética na moderna literatura brasileira e de seu trabalho como crítico de arte. Nascido em 10 de setembro de 1930, em São Luís, no Maranhão, José Ribamar Ferreira (Gullar é o aproveitamento do nome francês, Goulart, de sua mãe) pensou, primeiro, em ser jogador de futebol, até que um sarrafo de um adversário o demoveu da idéia. Aos 13 anos, na escola técnica onde aprendeu a plainar e polir madeira, decidiu ser escritor, depois de receber elogios de uma professora por conta de uma redação sobre o Dia do Trabalho. Manteve-se, assim, a tradição do Maranhão em gerar filhos que sabem como poucos manejar a língua. Gullar faz sempre questão de lembrar que a primeira gramática da língua portuguesa editada no Brasil foi escrita por um maranhense. Foi também um maranhense, Odorico Mendes, quem primeiro traduziu os clássicos poetas latinos Horácio e Virgílio. Por essas e outras, desenvolveu-se no Maranhão uma cultura clássica que levou São Luís a ser chamada de Atenas brasileira. Ferreira Gullar é um legítimo representante desse chão. Em 1949, foi publicado seu primeiro livro, Um pouco acima do chão, que mais tarde excluiria de sua bibliografia. Dois anos depois, começa a assinar críticas de arte quando, já no Rio, torna-se amigo do crítico Mário Pedrosa e de jovens pintores da época. Em 1954, Gullar lança A luta corporal, um de seus mais importantes livros de poemas, que vinha sendo escrito desde 1950. A partir deste livro, passa a ter contato com os poetas Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari, que viriam a criar o concretismo, movimento com o qual Gullar flertou durante um tempo para depois abandonar definitivamente. No dia seguinte ao golpe militar de 1964, Ferreira Gullar filia-se ao Partido Comunista Brasileiro, em mais um ato revelador de sua solidariedade com os amigos e companheiros de luta política. Após um longo período vivendo na clandestinidade, Gullar parte para o exílio em 1971, primeiro em Moscou e depois em Santiago, Lima e Buenos Aires. Enquanto mora fora do país, colabora com o Pasquim e outros jornais alternativos. Em 1976, sai em livro o Poema sujo, escrito em Buenos Aires e que acabou lançado no Rio sem a presença de Gullar. ''Senti que poderia desaparecer a qualquer momento e nessas circunstâncias resolvi escrever o Poema sujo, como se fosse a última coisa da minha vida. É a última coisa, o último grito, e vou dizer tudo que tenho para dizer enquanto é tempo'', contou depois o poeta. A relação de Ferreira Gullar com o Jornal do Brasil é antiga. Convidado por Reinaldo Jardim em 1956, ele foi um dos primeiros colaboradores do famoso Suplemento Dominical, caderno literário que marcou época pela qualidade de seus ensaios e pela agitação que causou nos meios artísticos, lançando os movimentos Concreto e Neo-Concreto (cujo manifesto foi escrito por Gullar). O poeta defende a tese segundo a qual o sucesso e o prestígio do SDJB estimularam a condessa Pereira Carneiro a realizar a famosa reforma do JB, no fim dos anos 50. - Criávamos muito problema. Os responsáveis pela área econômica do jornal reclamavam do excesso de papel em branco. A gente exagerava: dava metade da página em branco, com apenas dois títulos. Ficava bonito, mas custava uma fortuna - relembra."

Marina Colasanti: Como quem volta


Como quem volta à casa antiga, chego e me instalo. Mas não é uma casa antiga. É uma antiga casa nova, pois é para fazer o novo que fomos convocados.
Existe o novo? me pergunto. Um novo desvinculado de tudo o que o antecedeu, um novo primeiro, inaugural, que nasce consigo?
Quando entrei no Caderno B a primeira vez, havia palmeirinhas no patamar da escada, vidros jateados com arabescos separando as salas e linóleo verde no tampo das mesas, debaixo das máquinas de escrever. Eu também tinha um estremecimento de palmeiras na alma, farfalhar de medo e insegurança. Tudo era novo para mim. Vinha de belas-artes, jornalismo só se aprendia na redação e era terreno de gente atirada, ruidosa, homens, de preferência. Eu ali hesitante, sem me sentir atirada, sem saber onde me punha, sem saber como agir, o que dizer, sem saber. E nada ruidosa.
Anos depois chegaria ao jornal armada, porque havia ameaça de invasão por parte dos militares. Entreguei a Carlos Lemos, então secretário do jornal, a pistola Beretta 22 que levava na bolsa, quase uma bijuteria que meu pai havia me dado para me proteger, porque morava sozinha com meu irmão no Parque Lage. Não lembro, mas certamente Lemos sorriu do meu gesto de valentia. Já não era a mocinha hesitante que havia chegado àquela casa, era a jornalista disposta a defendê-la.

Aqui aprendi tudo o que havia para se aprender em jornalismo. Até a falar alto e a contar piadas, mais alto nos dias em que fazíamos o fechamento de três cadernos e a redação ficava tensa, de olho no relógio. E aprendi com Amílcar de Castro a ousadia estética que havia sido inaugurada por Reynaldo Jardim, e que nunca mais esqueceria, a guilhotina agindo sobre as fotos com entusiasmo de revolução francesa.

Máquinas de escrever, linóleo, guilhotina, fotos em papel, que antiga deve parecer a um jovem essa conversa. E, no entanto, apesar de eu ter passado pela cerimônia de iniciação de todo jovem jornalista daquela época - descer à oficina e ter o próprio nome fundido em chumbo pelo linotipista, nome que, com seu novo peso, ainda guardo em alguma gaveta - éramos moderníssimos.

Não sei se ainda saberíamos produzir uma modernidade igual àquela. Como se o novo só se concretizasse depois de emitido pelo Caderno B. Éramos todos repórteres investigativos do novo, daquilo que, como ainda não se dizia mas já existia igualzinho, acabava de pintar nas bocas. Ou melhor, que se preparava para pintar nas bocas e que só pintaria, de fato, depois de sacramentado pelo B. Passar o fim de semana sem ter lido antes o Caderno B era um risco que os descolados não se permitiam.

Em certo momento criamos - digo criamos por vaidade, pois quem criou mesmo foi Alberto Dines, nós apenas realizamos - a Página de Verão. Começava a esquentar, mudava o horário e lá íamos nós. Que alegria fazê-la, viver a cidade que nem sabujo, farejando pelos cantos, antenas sempre ligadas, olho nos detalhes, nos esboços, nos nascedouros. E a cidade toda, não apenas a Zona Sul, embora a Zona Sul, et pour cause, fosse a nossa praia. Uma crônica, uma coluna, uma reportagem, assim era a Página. E ilustrações a traço. Durante alguns anos, a impressão que tivemos era de que o verão não aconteceria em sua plenitude sem ela. Mas as páginas são sempre mais propensas a acabar do que os verões.

Tivemos o Jornal de Poesia, página dupla, mensal, com o que de mais atual estivesse ocorrendo entre os bardos. Lira tocando na imprensa diária, como nunca depois.

E durante oito anos, barbarizamos no teatro. Nunca mais o Rio teve uma cobertura teatral como naquele período. Era editor Paulo Affonso Grisolli, que acabou de falecer em Portugal. Diretor de teatro, e mais tarde de televisão, ele ensaiava de um lado, editava do outro, sempre de olho nos palcos. A redação se encheu de gente de teatro, uns que vinham conversar, outros que eram redatores, como Luis Carlos Maciel e Tite de Lemos. Cheguei até a fazer os figurinos para uma peça de Grisolli que apresentamos no MAM, tudo modesto, tudo sem dinheiro, mas parte da efervescência que vivíamos e que levávamos para as mesas com tampo de linóleo.

Gente maravilhosa passou por elas. Quando adentrei no B, quem mais se alegrou foi José Ramos Tinhorão, que, não sendo ainda essa sumidade da MPB, era redator. Cabia a ele, até então, por falta de mulher na redação, fazer as matérias femininas. Com a minha chegada, nunca mais teve que se preocupar com a altura das bainhas. Nonato Masson, especialista em cangaço, editor, que criou sessões memoráveis como Onde o Rio é Mais Carioca. Cláudio Mello e Souza, o poeta com peito de havaiano, como o definia Nelson Rodrigues. João Antônio, redator tímido que em silêncio afiava suas garras para as letras, e que um dia me mostrou, com alma exposta, os contos que acabara de mandar para o concurso literário do Paraná. Roberto Drummond, que tinha medo do Rio, que tinha medo do mundo, que sentava a um canto com as costas contra a parede e de vez em quando fugia para Belo Horizonte para nunca mais voltar, até que não voltou. Juarez Barroso, belo contista que só não produziu ampla obra porque morreu cedo. Carlos Eduardo Novaes, que ali consolidou seu humor. Fernando Gabeira, a quem eu dava carona na volta e que enfrentava o trânsito com longos discursos políticos. E o inigualável time dos cronistas, Clarice, Drummond, Sabino e o recém-republicado Carlinhos.

A velha nova casa guarda ainda as pegadas dos antigos habitantes. O nosso desafio agora é fazer um caderno tão novo quanto aquele que fizemos juntos.
Por Jéssica Lima e Priscilla Diniz