Sobre nós


O blog “Falando do B” tem como objetivo resgatar a história de um grande sucesso do Jornal do Brasil, o Caderno B. Os alunos da FACHA (Méier) desejam mostrar o início desse suplemento, a sua fase áurea, os grandes escritores e jornalistas que trabalharam no caderno e o quanto ele foi importante, visto que inaugurou uma área cultural até então inexplorada pelo jornalismo brasileiro. Os cadernos culturais se transformaram em objeto de desejo da maioria dos jornais depois de sua criação. O Caderno B foi o pioneiro e até hoje nós podemos curtir esse trabalho diariamente no JB.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Textos do B

Mais um da Clarice Lispector:

"PRECISA-SE"
Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.
Por Priscilla Diniz

Grande Zózimo!!


Zózimo Barrozo do Amaral revolucionou as colunas sociais. Com estilo mordaz e bem-humorado, não se limitava a escrever sobre a alta sociedade. As suas notas tinham no máximo 10 linhas, e foram publicadas de 1969 a 1993 no Jornal do Brasil. Além da coluna, ele acumulava a função de editor do Caderno B e do Informe JB. Destacava-se pela forma sutil e concisa de escrever e por saber como obter as notícias em primeira mão. Zózimo descobriu que Ivo Pitanguy viajaria para operar a duquesa de Windsor, antes mesmo de o convite ter sido feito ao cirurgião e, apesar de admitir que conhecia pouco sobre futebol, noticiou antes de toda a editoria de esporte, que a seleção brasileira disputaria um torneio internacional em Mônaco.

Por Priscilla Veiga Diniz

terça-feira, 5 de maio de 2009

Joaquim Ferreira dos Santos conta como era trabalhar no Caderno B!


“Eu trabalhei no Jornal do Brasil de 1983 a 1991. Tinha vindo da Veja e fui para o Caderno B
numa época em que eu era o único repórter homem; só tinha mulheres repórteres. Foi num
período ótimo porque tinha um espaço muito grande para o texto; como ainda tem. As matérias
eram enormes, a gente podia escrever bastante e fazer essas coisas que já eram tendência
de artes, espetáculos e comportamento. Foi um período de muita felicidade, de realização
profissional, de bom ambiente, de boas relações. Tinha uma história de que o salário não era
bom, mas havia o salário ambiente, porque era muito bom conviver com gente tão legal”.


Joaquim Ferreira dos Santos (hoje é colunista de O Globo)
Por Jéssica Lima

Zuenir Ventura conta como foi sair do JB!


“Eu torço para que o Jornal do Brasil tenha jeito. A sobrevivência do jornal é boa para
todos nós. Não só pelas razões de mercado, mas pela própria história do JB. É uma belíssima
história. Sair do Jornal do Brasil foi muito difícil pra mim. Minha família tem quase 40 anos de
JB: minha mulher (Mary) ficou 14 anos, eu 12 e meu filho (Mauro) 11. A proposta de O Globo
foi muito boa e não tinha como recusar. Mesmo assim, tive dúvidas. Os leitores, porém, não
perdoaram, no início, a minha saída. Nem a mim, nem ao Luis Fernando Veríssimo, que saiu
quase na mesma época que eu saí. Era como se o JB fosse um clube ou uma mulher, que
não se pudesse deixar ou trocar. Levei três meses para sair do jornal. Fui falar com meu amigo Kiko Nascimento Brito, esperando que ele dissesse “não vai não”, “você não pode sair”, e ele mesmo achou que era uma boa proposta e que não tinha como cobrir. E foi assim que eu resolvi sair do Jornal do Brasil”.

Zuenir Ventura (hoje é colunista de O Globo)

Por Jéssica Lima

Crônica do Xexéo sobre as relações industriais mantidas pelo Cinema e pelo Teatro, expressões que, na teoria, deveriam ser apenas Cultura.


14/05/1997 - Jornal do Brasil - Caderno B - Artur Xexéo. O inimigo do teatro é o cinema.

“O cinema brasileiro já agrediu seus espectadores com filmes ruins, artigos pretensiosos na imprensa e entrevistas rancorosas. Mas nunca foi tão agressivo como na sanha com que vem tentando derrubar uma possível Lei das Artes Cênicas que ajude a atividade teatral nos mesmos moldes com que a Lei do Audiovisual vem auxiliando a atividade cinematográfica. O cinema e o teatro no Brasil sempre se comportaram de maneira muito diferente. Enquanto o primeiro evoluía com descontração por gabinetes de Brasília, o segundo se contentava com reuniões na sala de visitas de Alcione Araújo. Como resultado, o cinema sempre se beneficiou de leis governamentais que garantem produções milionárias enquanto o teatro se limitava a sonhar com uma campanha da Kombi. Agora que descobriu que seus problemas não cabem numa Kombi, o teatro se defronta com seu verdadeiro inimigo: o cinema. 'Cinema é uma indústria que sofre concorrência internacional e, por isso, precisa de uma complexa engenharia financeira', vaticina o produtor cinematográfico Luiz Carlos Barreto, já temendo a divisão do dinheiro que hoje financia exclusivamente filmes. Em outras palavras, cinema é indústria, teatro é artesanato. Um precisa de leis de fomento. O outro deve se contentar com esmolas. Será ? 'Os custos e o retorno financeiro de um filme são diferentes dos de uma peça', complementa a produtora Glaucia Camargos. São mesmo. Há peças, por exemplo, que custam muito menos que qualquer filme nacional e dão um retorno muito maior que a maioria da recente produção cinematográfica do país. Os monólogos interpretados no palco por Miguel Falabella e Claudia Jimenez, a comédia O mistério de Irma Vap ou o drama de reminiscências Pérola conseguiram atingir um número de espectadores que faria a maior parte dos cineastas locais morrerem de vergonha. Ué, mas não seria justamente o cinema, a tal atividade industrial, que deveria atingir a massa ? Custos altos também são muito relativos. O orçamento de uma superprodução cinematográfica brasileira - algo entre 3 e 4 milhões de dólares - só serve para pagar uma produção independente nos Estados Unidos. E alguns orçamentos do teatro nova-iorquino, por exemplo, atingem a casa dos 10 milhões de dólares, quantia nunca utilizada por uma produção cinematográfica nacional. Então o que é que caracteriza o cinema como atividade industrial e o teatro como atividade artesanal ? As fábricas de filmes, que compuseram o modelo do cinema americano até os anos 50, caíram em desuso no mundo inteiro. Operários especializados não são exclusividade do cinema. Técnicos em efeitos especiais, iluminadores sofisticados, cenógrafos que se confundem com arquitetos são cada vez mais utilizados no teatro de todo o mundo. O teatro é a principal atividade turística de Nova Iorque, ganhando longe da Estátua da Liberdade, do circuito de museus, do Empire State Building. Gera dinheiro - e muito - para a cidade. Não é verdade que 'o teatro, tradicionalmente, em qualquer lugar do mundo, é uma atividade artesanal e deve ser subvencionada pelo governo e patrocinada por empresas privadas', como quer Luiz Carlos Barreto. Qualquer produção teatral moderna americana conta com produtores que dividem seu orçamento em cotas oferecidas ao mercado, como os produtores de cinema no Brasil estão começando a fazer. Uma Lei das Artes Cênicas pode ser o primeiro passo para o teatro brasileiro, enfim, se profissionalizar. Não é o volume do orçamento, o fato de produzir uma obra reprodutível, a concorrência de produto estrangeiro ou a possibilidade de competir em mercados diferentes simultaneamente que torna o cinema mais indústria que o teatro. Se fosse assim, os artistas plásticos já teriam pronta sua Lei da Xilogravura. Teatro e cinema fazem parte da mesma indústria: a indústria do entretenimento. E o meio teatral só vai perceber isso quando passar a fazer o que o cinema brasileiro faz como ninguém no país: lobby. É claro que ninguém aqui está falando em cultura. Cultura só sobrevive com subvenção. Mas também não foi pensando em cultura que o meio cinematográfico bolou a Lei do Audiovisual. O assunto aqui é entretenimento. E já que o pessoal do teatro está seguindo os passos da turma do cinema, é bom que aprenda com os erros dos outros. Cuidado com os atravessadores ou “captadores de recursos”, como eles se intitulam. Até agora, com a Lei do Audiovisual, foram os únicos que saíram ganhando. E, para acabar o assunto, atividade industrial tem que ter mercado, preços competitivos e dar lucro. Se não, a fábrica fecha”.

23/05/1999 - Jornal do Brasil - Caderno B. O maldito do cinema brasileiro.

Paulo Vasconcellos e Marcelo Janot

“O maldito da vez do cinema brasileiro chama-se Guilherme Fontes, tem 31 anos de idade e carrega uma razoável bagagem como galã de televisão e cinema. No currículo não há nenhum longa-metragem como diretor, mas uma promessa de superprodução que ameaça virar pesadelo. Desde que suspendeu as filmagens de Chatô, o rei do Brasil, baseado no livro de Fernando Morais sobre Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, dono do maior império de comunicações que o país já teve, muita gente não dorme direito. Nem Júlio Bressane, nem Rogério Sganzerla, nem Ivan Cardoso foram tão destratados. Pelas contas do mercado já foram torrados R$ 10 milhões no filme - uma vez e meia o que foi consumido em Central do Brasil . Na ponta do lápis, Guilherme Fontes diz que só gastou R$ 4,5 milhões. Não falta quem o aponte como aventureiro. Um ex-colaborador de Guilherme garante que a anarquia domina Chatô desde que o projeto começou a ganhar forma, há cinco anos. Na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), encarregada de fiscalizar a aplicação dos recursos obtidos com as leis Rouanet e do Audiovisual, a informação é de que não paira nenhuma irregularidade. “Não achamos nada errado”, dia José Álvaro Moisés, da Secretaria de Audiovisual do Ministério da Cultura. “A paralisação do filme já é sinal de que algo está errado”, afirma o produtor Luiz Carlos Barreto. Às voltas com as dificuldades de captação de dinheiro para a conclusão do filme Senhorita Simpson, do filho Bruno, Luiz Carlos Barreto alega que a situação está provocando uma retração dos financiadores. “Um ator inexperiente não pode atrapalhar o esforço coletivo do cinema brasileiro”, endossa Sandra Werneck, que também busca recursos para Amores possíveis, orçado em R$ 1,8 milhões. “Estou sendo vítima de uma lei imperfeita, mas com mais R$ 1,5 milhão termino Chatô", rebate Guilherme. “Não fomos informados sobre paralisação. Sabemos que têm havido certas dificuldades, mas, até prova em contrário, cosideramos que sejam normais em um país sem uma indústria de cinema consolidada”, diz Miguel Jorge, vice-presidente de Assuntos Corporativos da Volkswagen, um dos investidores de Chatô”.

“Fábio Coelho, diretor de Marketing do Citibank, impõe condições à liberação de mais recursos. “Apostamos na iniciativa, mas esperamos que outras empresas também participem”. Num setor que oscila tanto quanto o país, a preocupação se justifica. Antes de qualquer fracasso se tornar mais do que uma ameaça, a tendência já apontava que 1999 seria um ano ruim para o cinema brasileiro. “Se um projeto de R$ 10 milhões para, joga tudo por água abaixo”, diz Sandra Werneck. “Chatô vai terminar, defende-se Guilherme Fontes. Se não for assim, o que prometia ser o patinho bonito do cinema brasileiro corre o risco de virar o personagem da fábula”.

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Perceberam como as falas dos entrevistados, colocadas em sequência, se casam de uma forma que parece que eles estão discutindo o assunto na nossa frente?


A ultima crônica,essa de Drummond

Em 1984, três anos antes de morrer, o poeta Carlos Drummond de Andrade publica sua ultima crônica no JB.Antes, despede-se do editor M.F.Nascimento Brito, com a frase :
"Sinto que é hora de descansar.."

Ciao

Há 64 anos, um adolescente fascinado por papel impresso notou que, no andar térreo do prédio onde morava, um placar exibia a cada manhã a primeira página de um jornal modestíssimo, porém jornal. Não teve dúvida. Entrou e ofereceu os seus serviços ao diretor, que era, sozinho, todo o pessoal da redação. O homem olhou-o, cético, e perguntou:
― Sobre o que pretende escrever?
― Sobre tudo. Cinema, literatura, vida urbana, moral, coisas deste mundo e de qualquer outro possível.

O diretor, ao perceber que alguém, mesmo inepto, se dispunha a fazer o jornal para ele, praticamente de graça, topou. Nasceu aí, na velha Belo Horizonte dos anos 20, um cronista que ainda hoje, com a graça de Deus e com ou sem assunto, comete as suas croniquices.

Comete é tempo errado de verbo. Melhor dizer: cometia. Pois chegou o momento deste contumaz rabiscador de letras pendurar as chuteiras (que na prática jamais calçou) e dizer aos leitores um ciao-adeus sem melancolia, mas oportuno.

Creio que ele pode gabar-se de possuir um título não disputado por ninguém: o de mais velho cronista brasileiro. Assistiu, sentado e escrevendo, ao desfile de 11 presidentes da República, mais ou menos eleitos (sendo um bisado), sem contar as altas patentes militares que se atribuíram esse título. Viu de longe, mas de coração arfante, a Segunda Guerra Mundial, acompanhou a industrialização do Brasil, os movimentos populares frustrados mas renascidos, os ismos de vanguarda que ambicionavam reformular para sempre o conceito universal de poesia; anotou as catástrofes, a Lua visitada, as mulheres lutando a braço para serem entendidas pelos homens; as pequenas alegrias do cotidiano, abertas a qualquer um, que são certamente as melhores.

Viu tudo isso, ora sorrindo ora zangado, pois a zanga tem seu lugar mesmo nos temperamentos mais aguados. Procurou extrair de cada coisa não uma lição, mas um traço que comovesse ou distraísse o leitor, fazendo-o sorrir, se não do acontecimento, pelo menos do próprio cronista, que às vezes se torna cronista do seu umbigo, ironizando-se a si mesmo antes que outros o façam.

Crônica tem essa vantagem: não obriga ao paletó-e-gravata do editorialista, forçado a definir uma posição correta diante dos grandes problemas; não exige de quem a faz o nervosismo saltitante do repórter, responsável pela apuração do fato na hora mesma em que ele acontece; dispensa a especialização suada em economia, finanças, política nacional e internacional, esporte, religião e o mais que imaginar se possa. Sei bem que existem o cronista político, o esportivo, o religioso, o econômico etc., mas a crônica de que estou falando é aquela que não precisa entender de nada ao falar de tudo. Não se exige do cronista geral a informação ou comentários precisos que cobramos dos outros. O que lhe pedimos é uma espécie de loucura mansa, que desenvolva determinado ponto de vista não ortodoxo e não trivial e desperte em nós a inclinação para o jogo da fantasia, o absurdo e a vadiação de espírito. Claro que ele deve ser um cara confiável, ainda na divagação. Não se compreende, ou não compreendo, cronista faccioso, que sirva a interesse pessoal ou de grupo, porque a crônica é território livre da imaginação, empenhada em circular entre os acontecimentos do dia, sem procurar influir neles. Fazer mais do que isso seria pretensão descabida de sua parte. Ele sabe que seu prazo de atuação é limitado: minutos no café da manhã ou à espera do coletivo.

Com esse espírito, a tarefa do croniqueiro estreado no tempo de Epitácio Pessoa (algum de vocês já teria nascido nos anos a.C. de 1920? duvido) não foi penosa e valeu-lhe algumas doçuras. Uma delas ter aliviado a amargura de mãe que perdera a filha jovem. Em compensação alguns anônimos e inominados o desancaram, como a lhe dizerem: “É para você não ficar metido a besta, julgando que seus comentários passarão à História”. Ele sabe que não passarão. E daí? Melhor aceitar as louvações e esquecer as descalçadeiras.

Foi o que esse outrora-rapaz fez ou tentou fazer em mais de seis décadas. Em certo período, consagrou mais tempo a tarefas burocráticas do que ao jornalismo, porém jamais deixou de ser homem de jornal, leitor implacável de jornais, interessado em seguir não apenas o desdobrar das notícias como as diferentes maneiras de apresentá-las ao público. Uma página bem diagramada causava-lhe prazer estético; a charge, a foto, a reportagem, a legenda bem feitas, o estilo particular de cada diário ou revista eram para ele (e são) motivos de alegria profissional. A duas grandes casas do jornalismo brasileiro ele se orgulha de ter pertencido ― o extinto Correio da Manhã, de valente memória, e o Jornal do Brasil, por seu conceito humanístico da função da Imprensa no mundo. Quinze anos de atividade no primeiro e mais 15, atuais, no segundo, alimentarão as melhores lembranças do velho jornalista.

E é por admitir esta noção de velho, consciente e alegremente, que ele hoje se despede da crônica, sem se despedir do gosto de manejar a palavra escrita, sob outras modalidades, pois escrever é sua doença vital, já agora sem periodicidade e com suave preguiça. Ceda espaço aos mais novos e vá cultivar o seu jardim, pelo menos imaginário.

Aos leitores, gratidão, essa palavra-tudo.(Jornal do Brasil, 29/09/1984)