Sobre nós


O blog “Falando do B” tem como objetivo resgatar a história de um grande sucesso do Jornal do Brasil, o Caderno B. Os alunos da FACHA (Méier) desejam mostrar o início desse suplemento, a sua fase áurea, os grandes escritores e jornalistas que trabalharam no caderno e o quanto ele foi importante, visto que inaugurou uma área cultural até então inexplorada pelo jornalismo brasileiro. Os cadernos culturais se transformaram em objeto de desejo da maioria dos jornais depois de sua criação. O Caderno B foi o pioneiro e até hoje nós podemos curtir esse trabalho diariamente no JB.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

18 de maio 1999 - Capa do B com Dias Gomes

Fonte: JB Online

OS BEATLES (04/07/1965) - por José Carlos Oliveira


Fala-se muito ultimamente em quatro rapazes: os Beatles. Eles representam para a Inglaterra o que a Brigitte Bardot representava há pouco tempo para a França: um monte de divisas. Por causa disso, a Rainha os elevou à Ordem do Império Britânico. Diante do quê os velhos heróis britânicos devolveram suas condecorações. Nesse momento ficou claro que os Beatles simbolizam a juventude atual, cujo comportamento e linguagem estão em conflito permanente com os chamados valores respeitáveis, representados estes pelos velhos heróis. Um deles, Paul Mc Cartney, fez esta declaração importante:
- Os velhinhos estão zangados porque nós conquistamos, cantando, a medalha que eles foram buscar no campo de batalha. Pois eu acho que é muito melhor cantar do que fazer a guerra.
Eis, em sua simplicidade, o conflito. A juventude quer a dança, a bagunça alegre; os mais velhos vêm com aquela velha história de honra e bravura, que acaba em sangue e lama. O encanto dos Beatles reside no fato de que não levam nada a sério, a não ser o dinheiro. E não se preocupam muito com o dinheiro, apenas vão recolhendo aquilo que ganham com o seu trabalho. Mostram-se cabeludos só para chatear, e um deles, John Lennon, considerado o intelectual do grupo, chegou mesmo a publicar um livro completamente alucinado, que lembra os belos tempos de outra geração igualmente descontraída, pacífica, alegre e, por isso tudo, perigosa: os surrealistas. Foram dizer a John Lennon que o modo como o seu livro fora escrito recordava a técnica de James Joyce. Eis o que ele comentou:
Todo mundo falava tanto que eu imitava o Joyce que acabei resolvendo lê-lo. Foi fantástico. Incrível. Levei a metade de um dia para decifrar a metade de um capítulo. Mas tive a impressão de reencontrar o meu papaizinho...
É bom que os jovens não tenham medo de nada e que se lancem como iconoclastas sobre tudo o que se considera mais sagrado e respeitável: os cabelos cortados, a literatura de vanguarda, qualquer espécie de protocolo e, finalmente, aquilo que é quase sempre o fim de tudo isso: a guerra para defender toda essa hierarquia, que no entanto é sempre contestável. Quem fez a fortuna dos Beatles foram as crianças. Em todas as regiões do Ocidente, as crianças se apaixonaram por eles e começaram a disputar os seus discos. Foi uma penetração irresistível: dos 200 milhões de dólares ganhos em 1964 pela indústria norte-americana de discos, 50 por cento eram representados pelos Beatles. Cem milhões de dólares, portanto, é quanto eles valem, em apenas um ano e em apenas um país. Em vez de devolverem as medalhas, aqueles velhos senhores deveriam começar a perguntar por quê. Por que os Beatles? Por que esses cabeludos, esses que zombam de tudo e não levam nada a sério?
Porque atrás dos Beatles estão toda a juventude e toda a infância. Esperemos que eles cresçam, e muitos velhos senhores começarão a tremer.

domingo, 21 de junho de 2009

Entrevista com Reynaldo Jardim, criador do Caderno B


Reynaldo Jardim foi o criador do Caderno B e participou da reforma do JB nos anos 50. Aos 82 anos, diz estar cada vez mais jovem e pede para não ser chamado de senhor. Com simpatia, se disponibilizou a responder perguntas para o Falando do B.

1- Como foi seu ingresso no JB? Quais cargos ocupou até chegar no momento
da criação do Caderno B?

Pela porta do Rádio Jornal do Brasil, onde dirigi e criei o Sistema “música e informação”.


2- No que exatamente consistiu a Reforma do JB, ocorrida nos anos 50?
A reforma do JB começou justamente nesse suplemento. Era um caderno de vanguarda inserido num mar de anúncios classificados. Com o sucesso do SDJB, a Condessa Pereira Carneiro resolveu dar uma cara e um conteúdo novo ao jornal. Chamou uma equipe de jornalistas, a maioria vinda do Diário Carioca. A cabeça da reforma do JB foi o Janio de Freitas. Você precisa falar com ele.


3- Como foi o processo de criação do Caderno B, tanto na parte gráfica quanto na de conteúdo?
Antes de criar o Caderno B inventei o Suplemento Dominical do Jornal do Jornal do Brasil que começou sendo um programa de crítica, comentários e assuntos culturais. O programa se transformou em caderno cultural, onde colaboraram: Antônio Houaiss, Ferreira Gullar, Mário Pedrosa, Mario Faustino, o Nogueira, o Rouanet e um punhado de jovens muito bem informados.


4- De que forma foi traçada a linha editorial do B?
O JB era editado em dois cadernos. O segundo era apenas o prosseguimento do primeiro e nele saiam os classificados. Eu achei que esses anúncios deveriam sair em caderno separado. O caderno A, atualidade; o C, classificados; o do meio, o B, assuntos culturais. O B, batizado pelo Jânio, era editado por mim. Como eu só sei editar desenhando as páginas.

Não houve um planejamento a priori. As coisas foram tomando forma aos poucos, à proporção que ia formando a equipe. Havia páginas com editorias fixas. Por exemplo, o Sérgio Cabral escrevia uma página chamada “Música naquela base”. O Noronha copidescava “Onde o Rio é mais carioca” com matéria produzida pelo Amaury e a Vera. O Newton Carlos, “O céu também é nosso”.


5- O prestígio do Caderno era em função da qualidade das matérias ou dos colunistas?
Da inovação, do bom jornalismo, da dedicação de todo mundo.


6- De que forma os colunistas eram escolhidos?
Pelo talento e bom texto. Pela honestidade profissional.


7- Como era trabalhar com pessoas famosas como Clarice Lispector, Marina Colasanti e Drummond?
Eu criei e editei o B durante cerca de seis anos. Depois vieram outros editores. No meu tempo eu não trabalhava com pessoas famosas, trabalhava com jovens competentes que depois se tornaram famosos.


8- Por qual motivo o senhor se demitiu do JB em 1964?
Quando eu me demiti, era o editor do B, diretor da Rádio JB, fazia o Caderno de Domingo e uma revistinha para crianças.

Um dia eu cheguei na rádio e a equipe de programação da música não estava lá. Me informaram que o Dr. Brito havia convocado o pessoal para orientá-los. Entrei na sala de reunião e lá estava o meu pessoal recebendo instruções. Fiquei furioso com a quebra de hierarquia. Só porque ele era o dono da empresa pensava que podia passar por cima. Eu me sentia o dono da rádio. Sai da sala e bati a minha carta de demissão. Naquele tempo com mais de 10 anos de serviço, a não ser por justa causa, ninguém podia ser demitido. Sem uma alta indenização. Abri mão de tudo.


9- Em termos de ambiente, colegas e linha editorial, em qual veículo o senhor gostou mais de trabalhar?
Eu não trabalho onde não gosto. No JB era ótimo. No Correio da Manhã, melhor ainda. No Sol foi o trabalho mais gratificante.


10- O caderno de hoje pode ser considerado tão bom quanto o Caderno B dos anos 60 e 70?
O próprio Jornal do Brasil piorou muito, O B de hoje não é nada. O JB perdeu a dignidade formal e de conteúdo. Mas tem gente boa lá.
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Por Daniela Frauches e Jéssica Lima

Nuvens suburbanas sob o sol de Ipanema

Foto de Fábio Motta, da Agência Estado

Matéria de Joaquim Ferreira dos Santos publicada na capa do Caderno B de 4 de novembro de 1984.

"Ipanema, essa senhora cada vez mais gorda e poluída, reclama de novas estrias e dentes cariados em seu corpanzil: agora é culpa dos ônibus Padron, a linha 461 que, há um mês, está trazendo suburbanos para seu "paraíso", numa viagem de apenas 20 minutos, via Rebouças. É o que dizem seus moradores, inconformados. Ouçam só:

- Que gente feia, hein?! (Ronald Mocdes, artista plástico, morador da Garcia D`Ávila, bem em frente ao ponto do ônibus).

- No outro dia eu saí da loja com um vestido comprido, alinhado, e você precisava ver o que aconteceu. Me chamavam de urubu, um horror. (Débora Palmério Fraga, gerente da Gregorio Faganello).

- É chocante dizer, mas eles estão desacostumados com os costumes do bairro. Nem vou mais à praia aqui. É farofeiro para tudo quanto é lado, olhando a gente de um modo estranho. Ficam passando aquele bronzeador. A sensação é de que eles estão invadindo o nosso espaço. (Maria Luiza Nunes dos Santos, ex-freqüentadora da praia da Garcia D`Ávila e que agora só vai ao Pepino).

- Desse jeito o verão vai ser um faroeste. (César Santos Silva, proprietário da lanchonete Chaika, na Visconde de Pirajá).

Os comerciantes estão se organizando e já despacharam diversos abaixos-assinados aos gabinetes de Leonel Brizola, de Jaime Lerner (o secretário que inventou a linha de ônibus), ao Detran, a todos que eles julgam com poderes para erradicar o mal. Reclamam também do inferno que se formou no trânsito. Ouçam mais:

- Depois das 17 horas a minha vitrine fica escondida atrás de uma fila enorme de passageiros. É claro que as clientes ficam bem inibidas de atravessar no meio daquela gente toda. (Doris Serfaty, da butique Carla Roberto, na Rua Vinicius de Moraes. Ela está lançando a moda que deixa o sutiã à mostra).

- A rua é muito apertada e, quando o ônibus pára, interrompe o tráfego no bairro inteiro. Só dá ele na rua. Fica uma buzinação de louco. Além disso ele é muito pesado, e o asfalto está cedendo. Tem que botar ele para fora da área do comércio. (Luli Beviláqua, da loja Luli R).

***

Há muito tempo que Luli não freqüenta a praia de Ipanema, preferindo as delícias mais calmas e limpas da Barra da Tijuca. Mas, definitivamente, já não há qualquer gueto de sofisticação sobre nossas areias, lamenta. Pois até a Barra está sendo cortada por outra linha da Padron, diretamente de Madureira. Na praia de domingo passado, Luli já sentiu a diferença.

- A praia mudou de cor. Eu fico ali no Farol da Barra, junto com o pessoal que pega wind. Apareceram umas caras inteiramente novas. Um cara estendeu a toalha, deitou e dormiu o tempo todo. Nunca tinha visto isso.

Os moradores de Ipanema sugerem que a Padron faça seus pontos no Jardim de Alá, na Praça General Osório, na Henrique Dumont, na Epitácio Pessoal, locais mais amplos, onde não causam qualquer dano ao fluxo do trânsito. E que a polícia, o 19º Batalhão, dê blitzen constantes no bairro. Eles acham que, se continuar do jeito que está, Ipanema no verão vai ser notícia não pelo biquíni enroladinho ou pelo sutiã exposto.

- No sábado um sujeito desses ônibus sentou em sua cadeirinha de praia dentro da minha loja para aproveitar o ar refrigerado, enquanto esperava a condução. Tive que chamar os seguranças da rua. Quando chegou na segunda-feira fui abrir os cadeados da porta e não consegui. Os farofeiros tinham entupido tudo com areia e papel. Precisei serrar. (Dono de uma sofisticada loja de decoração na Visconde de Pirajá, que não se identifica com medo de represálias).

- São grupos enormes, sempre gritando, fazendo bagunça e puxando os cordões de quem passa. Estão criando um cenário de vandalismo e terror. Os moradores por aqui estão assustados. (César Santos Silva, Chaika).

- Os passageiros na fila ficam olhando aqui para dentro de um jeito mal-encarado. As freguesas comentam com a gente: "Que horror!" No outro dia tinha um mal-encarado que ficou no ponto um tempão, sem pegar os ônibus. Como estava com a mão enrolada pensamos até que tivesse uma arma dentro. Chamamos a policia. Viver nesse clima não dá. Essa é a rua das melhores boutiques do Rio. Onde é que estavam com a cabeça quando botaram um ponto de ônibus suburbano aqui? (Cristina Campos, vendedora da Spy and Great, em frente ao ponto da Garcia D`Ávila).

***

Os depoimentos se sucedem, falam de churrasqueiras na praia, de bóias de pneus, do trânsito emperrado atrás das enormes traseiras dos Padron. Para que tudo melhore há tanto os que sugerem a mudança dos pontos, a retirada dos ônibus, mais polícia nas ruas, assim como mais educação. Mas pedem pressa. Pois o verão está aí e antes dele o Natal, mês que vem.

- A gente paga imposto tão caro para eles botarem essa pobreza na porta da gente. parece até a Central do Brasil. De vez em quando a gente passa por eles e grita "Japeri". Eles ficam chateados. (Ronaldo Mocdes, artista plástico).

- Fica essa negrinhagem aí na porta... (Cristina Campos, vendedora da Spy and Great).

- Quem tem um nível melhor já está procurando outra praia que não seja Ipanema. Eles não têm classe, não têm educação. Eu sei que a praia é pública, mas é horrível. No outro dia eu estava na praia conversando com a minha irmã, dizendo como os suburbanos são horríveis. Uma suburbana reclamou, mas eu nem dei conversa. Vê se eu vou me misturar. (Sonia Barletta, moradora da Rua Vinicius de Moraes).

- Eles têm direito de ir à praia, mas podem ir de maneira organizada. Ou senão ficar na praia deles, em ramos. O governo podia fazer também um lago artificial pra eles lá no subúrbio (Maria Luiza Nunes dos Santos, vendedora da Faganello).

- O turismo vai ser prejudicado, você vai ver. Ou você acha que o pessoal do Caesar Park vai querer se misturar com eles, suas bananas, piquenique. Pode parecer elitista, mas não é não. os suburbanos atrapalham. (Débora Palmério Fraga, gerente da Faganello).

- É o fim da picada, Ipanema acabou. Na praia ficam agora uns homens gordos passando bronzeador na barriga branca, aquelas cenas de amor de suburbano. Na minha porta é trocador assobiando, uma multidão sempre, gente feia mesmo. Não dá nem pra sair mais com os meus cachorros. (Ronald Mocdes, artista plástico, acariciando seus cachorros da raça Saluky, de nomes Tramp e Chivas).

- Au, au, au. (Tramp e Chivas)."

Por Amarilis Brandão, David Trindade e Karina Mattos

sábado, 20 de junho de 2009

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O B: precursor do jornalismo cultural especializado no Brasil

O Jornalismo Cultural
(Por Arthur Dapieve)


Dado o compreensível deslumbramento de estudantes e jovens profissionais pela área, a primeira coisa a ser dita sobre jornalismo cultural talvez seja a seguinte: ele não é, em si, uma forma de arte. Jogado o balde de água fria, cabe então acrescentar calorosamente: apesar disso, os chamados "segundos cadernos" continuam a ser, na imprensa brasileira, o habitat por excelência da experimentação e da renovação, tanto no texto como na apresentação gráfica. De tal forma que recursos inventados nas editorias de cultura são tomados emprestados pelas outras editorias, arejando jornais ou revistas. É de bom tom, porém, que essa avenida seja de mão dupla: o repórter cultural jamais deve perder de vista que, por mais "cultural" que ele seja, continuará sendo "repórter". E, portanto, em comum com seus colegas de redação, continuará tendo responsabilidades para com o leitor.Mas por que o jornalismo cultural acabou por se tornar o obscuro o objeto do desejo de expressiva parcela de formandos e recém-formados? Entre outras razões porque, anteriormente, o próprio caderno cultural havia se tornado objeto de desejo de quase todos os grandes e médios jornais brasileiros a partir da criação do Caderno B, do Jornal do Brasil, tal como o entendemos. No final dos anos 1950, o artista plástico Amílcar de Castro foi convidado por Odylo Costa, filho, para reformular o jornal visualmente. Não era tarefa fácil. Era preciso quebrar resistências em vários setores do JB, dos cargos de chefia aos operadores da gráfica. A sua nova primeira página, por exemplo, com um "L" de anúncios, mas ainda muito semelhante à que vemos hoje em dia, só foi pela primeira vez para as ruas a 2 de junho de 1959, cerca de dois anos depois do início do trabalho de Amílcar.Foi nesse contexto que surgiu o Caderno B. Destinado a não apenas tratar de cultura, mas também a ser, ele próprio, um produto cultural. Parte do hábito de se embaralhar jornalismo de arte com arte do jornalismo vem, por conseguinte, dessa concepção de suplemento, suplemento anteriormente identificado como "feminino" ou "de variedades". O velho B podia se dar a este luxo: contava em seus quadros, por exemplo, com o designer Reinaldo Jardim e com o poeta Ferreira Gullar. Ambos, e outros tantos, eram representantes de um tempo pré-regulamentação da profissão de jornalista, na qual escrever bem literariamente se confundia com escrever bem jornalisticamente. Graças a essa confusão, é bom ressaltar, os jornais brasileiros foram enriquecidos por, entre tantos outros, Graciliano Ramos e Nelson Rodrigues. Quase todo escritor nativo de antes dos anos 1970 pisou numa redação. A língua agradece.Com seus textos criativos e sua diagramação arrojada, o Caderno B tornou-se então um ponto de referência na imprensa do país. "Caderno B, você ainda vai ter um", poderia ter sido o slogan dos jornais brasileiros. Cedo ou tarde, todos os mais importantes criaram ou recriaram seus suplementos, às vezes traindo sua inspiração já nos títulos: Dia D (O Dia), Tribuna Bis (Tribuna da Imprensa), Caderno 2 (Estadão). O resultado foi que os cadernos de cultura à moda brasileira se tornaram sui generis no mundo. Não há, nos EUA ou na Europa, suplementos diários de cultura trazendo reportagens, resenhas críticas, colunas assinadas e, tão importante quanto, o chamado "serviço", ou seja, notinhas com o roteiro dos cinemas, teatros, galerias, casas de espetáculo: seus endereços e telefones, seus horários e dias de funcionamento, etc.No exterior, esse tipo de jornalismo fica restrito a um caderno semanal nos grandes diários, ou a revistas especializadas. Notícias sobre cultura são publicadas todos os dias, mas não em seções especiais, em separado, com as mesmas características conceituais dos cadernos brasileiros tributários do B.

Alberto Dines explica as peculiaridades do B

"O "Caderno B" do Jornal do Brasil – inventado por Reynaldo Jardim em meados dos anos 1950 – foi uma síntese do que hoje se chama "jornalismo cultural". Começou reunindo as magníficas sobras do dia anterior e aos poucos transformou-se num caderno de cultura.
Não era um suplemento literário, ensaístico, como os do Estado de S. Paulo, do Correio da Manhã e Diário de Notícias, montados em cima de rodapés assinados pelos "nomões" da crítica literária na boa tradição do feuilleton europeu. O "B" era uma pausa para o jornalismo de qualidade, grandes fotos, textos esmerados completos, grandes entrevistas, resenhas estimulantes, pausa para o prazer de ler e o dever de pensar.
O lado B do jornalismo é o seu lado verdadeiro, garantidor da sua sobrevivência ao longo de quatro séculos. Jornalismo cultural, cadernos de cultura e histórias bem contadas fazem parte do mesmo núcleo de resistência à homogeneização e à descartabilidade.
Este jornalismo cultural está sendo sitiado e lentamente esvaziado pelo comercialismo dos releases das editoras e produtoras, pelas lantejoulas do show-biz, pelas diferentes formas de charlatanice modernista e demais sub-subprodutos da sub-subindústria cultural."

terça-feira, 16 de junho de 2009

ALBERTO DINES-por Alexandre Brás






Alberto Dines esteve por 12 anos à frente da Redação do JB, tendo assumido pela primeira vez o cargo de editor em janeiro de 1962. Numa época de ditadura militar e censura aos órgãos de comunicação, Dines comandava o jornal em pelo menos dois momentos históricos: em dezembro de 1968, após a decretação do AI-5, mandou para as bancas uma edição marcada por ironias e linguagens figuradas; e, em 1973, driblou os censores mais uma vez, noticiando de forma original o golpe militar no Chile.
MORTE DE SALVADOR ALLENDE (12/09/1973)
Uma das mais importantes páginas do jornalismo nacional foi escrita em 12 de setembro de 1973, quando Alberto Dines chefiava a redação do JORNAL DO BRASIL. Na véspera, em Santiago, no Chile, eclodia o golpe contra o governo do presidente Salvador Allende, que foi achado morto num dos gabinetes do Palácio de La Moneda - e a partir daí a ditadura de Augusto Pinochet se instalaria de vez no país. Os censores brasileiros, que na época exerciam seu controle nas redações dos jornais através de bilhetinhos ou telefonemas, haviam determinado ao JB que a notícia da morte de Allende não tivesse nenhum destaque na primeira página. Nada de títulos garrafais, muito menos fotos abertas em várias colunas. Pois bem. Uma solução teria que ser encontrada, o jornal tinha que driblar de algum jeito a imposição da censura. Fez-se então uma primeira página sem manchete alguma, sem uma fotografia sequer, só com texto - as letras, de corpo 24, eram as maiores que os equipamentos da época permitiam. Ou seja: além do tradicional L de anúncios classificados, a morte do presidente chileno era o único assunto da primeira página do jornal. O impacto foi grande, muito maior do que qualquer título ou chamada teria. Uma edição que já foi descrita como uma das mais subversivas da história do jornal. Nas linhas finais do texto era descrito o trabalho do enviado especial do JB a Santiago, Humberto Vasconcelos, "que assistiu aos últimos momentos do governo Allende e destacou que os esquerdistas foram tomados de surpresa com a ação militar, que pôs fim a 41 anos de normalidade constitucional no Chile.

Entrevista com Antônio Carlos, conhecido como "Joinha", do Jornal do Brasil

No jornal do Brasil eu entrei dia 09 de Setembro de 1971, chamava naquela época de estafeta que entregava correspondência administrativa.
Depois de quase mais ou menos 10 meses, teve a oportunidade da fotografia, o laboratório fotográfico na Avenida Rio Branco, 110/112. Hoje é o Edifício Conde Pereira Carneiro, que era o nome do dono do jornal na época.
Comecei fazendo estágio. Após quase dois a três anos de estágio teve uma vaga de Laboratorista Fotográfico. Comecei a fazer. Tínhamos uma equipe de 45 fotógrafos e 10 laboratoristas. Cobria tudo e fazia tudo, material para viagens. Sempre tinham no mínimo dois ou três viajando para cobrir uma matéria de fora e sempre alguém na Europa também. A primeira agencia de noticia do país foi a agência Jornal do Brasil em 1976.

Mudança da fotografia no jornal do Brasil
Para o jornal a mudança aconteceu no final dos anos 80 e começo dos anos 90. Começamos a revelar os filmes C41, com os negativos C41 expondo eles no papel você pode fazer cor ou preto e branco. As páginas da frente poderiam ter cor, mas as folhas de trás não poderiam se não uma colava na outra se não estragava o material. O material era chamado um por um. Isto do preto e branco para o colorido.
Com a era digital, o negativo acabou, mas conseguimos ficar até 2005 com a máquina analógica. Algumas pessoas ainda trabalhavam com essa máquina. Tinha o processo de copiar o negativo, aparecia na tela e mandava para o sistema para publicar no jornal. Dava mais trabalho, agora é importante esse “mais trabalho” porque fazíamos um trabalho mais balizado. Um rolo de filme tinha 35 fotografias, e você com 36 fotogramas você pensava mais no que fotografava. Hoje, no dia a dia, com um cartão de memória de quatro gigas o pessoal faz muita coisa. Com a facilidade de tirar muitas fotos, você acaba fazendo muita coisa repetida. No rolo de filme você tirava uma ou duas fotos do mesmo lugar para escolher qual seria ou ficaria melhor.
Sou mais conservador das fotografias tiradas de máquinas analógicas, pois você pode revelá-las e guarda-las por um tempo maior. O negativo dura mais que uma foto num CD.

“Fotografia era muito difícil, agora qualquer um fotografa”.

“Fotografia é o olhar”.

Entrevista: Lilian Newlands

Período que esteve no JB

O curso prático promovido pelo próprio JB foi feito em fins de 1968, um ano que fala por si. Fiquei lá até 1970. Voltei em 1979 e esse período estendeu-se até 1990.

Importância do JB

A importância do JB na vida do país é um reflexo do que foi a importância na vida das pessoas. Foi uma grande escola tanto na profissão quanto nas relações humanas. Além do aprendizado na feitura de uma reportagem, todo o clima que cercava esse jornal tornou as pessoas mais tolerantes, capazes de decidir por si qual a maneira mais humana de lidar com o outro, seja nos altos círculos, seja com aquele sujeito que a vida esqueceu. Acho isso muito importante no cotidiano, porque, mais do que nos grandes momentos, é na hora despojada que as coisas se mostram como são. Acho, sem nenhum exagero, que o jornal - naqueles momentos, entre aquelas pessoas e diante daquelas circunstâncias diversas - tornou muita gente pessoas melhores, porque tiveram a chance de se conhecer, agir e até transformar.





Nem faz assim tanto tempo e nós trabalhávamos sem celular, sem computador, sem essa tecnologia (maravilhosa) que derruba grande parte das dificuldades. Estou falando da redação do Jornal do Brasil, para onde entrei através de um curso prático de Fernando Gabeira, saí, e voltei por dois períodos. Uma experiência humana e profissional inigualável, para mim e - acredito - para quase todos que passaram por lá. O Caderno B era, sim, o ponto máximo. Ao longo do tempo em que trabalhei no jornal fiz diversas colaborações para o B, sempre a convite de Humberto Vasconcellos. Mas eu era da geral e a geral sempre foi a minha escolha. E eu olhava em volta e constatava que ali todo mundo era muito, muito bom mesmo. Acho que o decantado "salário-ambiente" fazia todo sentido. E tinha mais: ainda que o Caderno B fosse o carro-chefe dos grandes textos, a reportagem geral estampada nas folhas diferia dos outros jornais pelo texto primoroso dos repórteres. Mesmo matérias de polícia, greves, abastecimento, etc, ou seja, o famoso "mundo-cão", tudo era tratado com uma leveza e um estilo próprio. Era o B na geral. E acho que, na época, isso era muito raro. Como raríssimo foi o grande encontro entre as pessoas. Era uma redação muito unida e solidária. A prova disso são os encontros que continuam até hoje, levando às vezes mais de 200 pessoas para um restaurante, só pra confraternizar, só pra abraçar uns aos outros, só pra ter certeza de que aquele foi um tempo real.

Entrevista: Joaquim Ferreira dos Santos


Foto de Karina Mattos

Há quem o conheça por sua coluna Gente Boa, mas não imagina a trajetória deste carioca que trabalhou mais de uma década na revista Veja, e marcou a redação de um dos cadernos de comportamento mais importantes dos anos oitenta. Sempre atuante nos modismos e tendências de sua época, o Caderno B do Jornal do Brasil.Em um papo descontraído e cheio de lembranças de um Rio de Janeiro marcante, Joaquim Ferreira dos Santos abriu as portas de seu apartamento no Cosme Velho, para uma entrevista exclusiva ao Falando do B, ao som do bondinho do Corcovado. Mais carioca impossível!

Como foi para você trabalhar no Caderno B em uma época em que só trabalhavam mulheres?

Eu entrei no Caderno B em 1983 e só tinha mulher mesmo. O editor era o Zózimo Barroso do Amaral. O sub-editor era Max Luiz e eu era o único repórter homem. Era coisa de mulherzinha, então homem não tinha lugar. Eu era o único repórter, o resto era realmente só mulheres.

De início, deu algum problema quanto a ser homem?

Não. Porque o Caderno B era uma mistura de artes, espetáculos, cultura e comportamento. Tinha de haver matérias de cidade no ponto de vista do comportamento. E sempre foi a minha área. Eu era repórter da Veja, onde eu fazia matérias de cidade, comportamento, que cabe um monte de coisas dentro disso, e fazia críticas de shows, de música, de televisão, estes aspectos de cultura. E o Caderno B é a mistura disso. Juntava todas estas minhas afinidades.Este negócio de Segundo Caderno não era, e continua não sendo, para jornalistas “sérios”. Para aqueles que quisessem ficar importantes, crescer. Eles faziam política, economia. Tinham seriedade a princípio. O segundo caderno é leve, de entretenimento, abobrinhas, e como eu gostava disso, embora quisesse seguir em frente e seguir carreira, eu sabia fazer, apostei e continuei nisso.

Você lembra de algum fato marcante na época em que trabalhou no Caderno B?
A reportagem mais marcante que eu fiz, sem dúvida, foi uma que tinha o título de “Nuvens suburbanas sob o sol de Ipanema”. Era uma matéria que tinha como pauta fazer sobre os ônibus que estavam engarrafando as ruas de Ipanema. O Túnel Rebouças não podia ter ônibus, acho que em 84/85. Até que o Brizola autorizou passar uma linha, que era São Cristóvão/ Ipanema, saindo de Leopoldina. Foi a primeira linha direta, que em 10 minutos você estava na Zona Sul. Então, os leitores estavam reclamando, segundo o editor, que os ônibus estavam engarrafando. Uma pauta muito mixuruca para segundo caderno. Mas eu vi logo que não era uma matéria de trânsito, era uma matéria de comportamento. Os moradores estavam reclamando da invasão das pessoas do subúrbio em Ipanema, do seu modo de ocupar Ipanema, de seu modo de ir à praia. E então eu fiz esta matéria do ponto de vista do preconceito da Zona Sul em relação ao subúrbio.Eu fiz uma matéria que ela não tinha texto de costura, fiz basicamente com os depoimentos. Em uma tarde, eu entrevistei muita gente. Umas 20 pessoas. Eu fiz uma abertura e depois eu colava os depoimentos, e eles contavam uma história. E terminava com um cachorro latindo, dizendo que a praia estava irreconhecível, onde as pessoas ficavam todas em farofadas, que as pessoas não sabiam se comportar. Eu não assumia nem um lado, nem o outro lado. Era parcial, eu colocava as pessoas falando. As confusões foram as mais diversas. Metade achou que eu estava a favor dos suburbanos, e a outra metade, que eu estava a favor da Zona Sul. No jornal, eu recebi muitas cartas protestando contra a matéria, que a julgavam preconceituosa. Repercutiu muito. Foi um espelho do bairro naquele momento. Uma matéria de trânsito, mas eu achei que não era de trânsito coisa nenhuma. As pessoas que estavam reclamando do comportamento e do modo de vida. E era um momento importante na história da cidade, aonde pela primeira vez o subúrbio chegava à Zona Sul em 10 minutos.Fiz também a época do Rock In Rio. Fazia também muitas matérias de música, que era a minha especialidade. Música brasileira, mas sempre juntando as coisas. Sempre juntando a ótica do comportamento. Foi uma época bacana, em que o Caderno B era um jornal forte e ditava a moda da cidade. A moda passava pelo Caderno B. Tudo que era importante, ou que ainda ia acontecer, o Caderno B antecipava os modismos, as ondas, as turmas, os lugares. Era um guia da cidade. O que estava acontecendo na cidade saía primeiro no Caderno B. Falava sobre o frescor da cidade, mas era em uma época em que o Rio estava mais, e continua sendo, mais unânime. Você podia respirar mais esses modismos sem a violência. Hoje, tudo passa pela violência. Antigamente passava pelo choque cultural. O estilo carioca de viver.

Uma coisa que eu fiz, que eu acho que fui eu, nunca ouvi ninguém dizendo que não fosse, que é esta coisa que se faz muito hoje, que é o balanço do verão. A grande época da cidade e a grande época do Caderno B. Época dos biquínis, dos posto da praia. Ouvia tribos e traçava o perfil. Já vi muita gente jogar coisa fora e eu ir lá e fazer umas matérias grandes. Eu fiz o primeiro balanço do verão, que no Rio de Janeiro é quase um ano a parte.

Você acha que os segundos cadernos de hoje têm seu assunto principal pautado em celebridades?

Hoje é inteiramente diferente. Não abrem mais espaço para matérias de comportamento. Classificaram de Artes e Espetáculos, com agenda, os shows que vão acontecer, as crises culturais, bastidores, mas é tudo cultura. Nessa época, não. Abria para comportamento, modismos, cidade. Talvez a matéria mais famosa do Caderno B, que é um pouco anterior a minha passagem por lá, foi a do Black Rio, nos anos 70, e foi um espanto na vida da cidade. Porque sempre foi um caderno chamado de elitista, muito Zona Sul, muito Copacabana, Ipanema. Um dia você abre o Caderno B, e tinham sei lá quantas páginas, umas 6, sobre o Black Rio, que era o estouro da música Black, Soul Music. Era Zona Norte, mas carregando no bojo da música o comportamento, modo de vida, cabelo, sapato, então foi um choque nas fotos, que não saia no jornal e o Caderno B descobriu com o faro que tinha para descobrir, o Black Rio. Até hoje tem desdobramentos do Black Rio.Hoje, os segundos cadernos não se identificam tanto quanto a isso, e continua sendo pauta mais de revistas. O segundo caderno perdeu este nicho. Acho uma pena, porque abria para pautas mais surpreendentes.

Você veio com uma bagagem muito grande da revista Veja e deu de cara com o Caderno B do JB. O que você acha que acrescentou para você na época?

Na Veja, todas as matérias eram reescritas. Você não identificava nada seu, ou identificava muito pouco. Eu já estava 11 anos na Veja, e era um repórter importante, mas a Veja tem um jeito de ser.Quando eu saí de férias, e recebi uma proposta do Jornal do Brasil, onde meu texto saía na íntegra. Eu tinha espaço para escrever os assuntos. A Veja era tão importante quanto hoje, mas no Caderno B era um texto mais autoral. Eu podia colocar a minha cara.
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Postado por Amarilis Brandão, David Trindade e Karina Mattos

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Resposta do quiz

Joaquim Ferreira dos Santos

Benditas Sejam as Moças, Em busca do Borogodó Perdido e O Que as Mulheres Procuram na Bolsa são alguns de seus livros publicados. Hoje escreve para a coluna Gente Boa, do jornal O Globo.





Postado por Amarilis Brandão, David Trindade e Karina Mattos

B noticia a morte de Elis Regina


quarta-feira, 10 de junho de 2009

Entrevista: Evandro Teixeira



Seu primeiro contato com a fotografia
Na Bahia, onde nasci. Eu era garoto e tinha preparado uma caixa de cinema em que projetava fitas em cortes. Era uma caixa de madeira que fiz com uma luz atrás. Tinha ideia de ser escultor, a fotografia surgiu de repente na minha vida. Fui morar em Jequié para estudar e aprender a fotografia com Walter Lessa, que era do jornal de Jequié. Depois fui morar em Piaú e comprei uma câmera para fotografar, mas estudando paralelamente.Depois fui para Salvador (Bahia) e continuei o aprendizado de fotografia com Silvio Glauber Rocha, que era um fotógrafo de capital mais clássico. Paralelamente com isso, fiz um curso com Zé Medeiros, no Cruzeiro. Em 1957, um amigo meu, que era dentista e compositor da Bahia, falava que jornalismo na Bahia não tinha futuro. Me encorajei e fui para o Rio de Janeiro. Ele fez uma carta para o diretor do Jornal Diário da Notícia, que era matutino e vespertino. O Cruzeiro era uma revista que também pertencia ao Chateaubriand. Vim para o JB e ele me recebeu bem, me concedendo um estágio. Fui santo casamenteiro no Diário da Notícia em uma página dedicada a casamento. O diretor me chamou e disse que eu iria entrar no lugar de um cara que estava se aposentando, mas só poderia fotografar rico, pobre, branco, menos preto. No primeiro dia, achei um casamento na Gávea, mas era um negão “black power” casando com uma alemã e fotografei. Naquela época usava role flax, de display. Eu fotografei assim mesmo e quando voltei para a redação falei para o laboratorista, que era um português com apelido de Villar, que só achei um preto casando com uma loira. Villar disse que não tinha problema: ele viraria branco. Fomos para o Laboratório. O papel padrão daquela época da ampliação era de 24 da Kodak. O Villar revelou a cópia e o cara ficou branco. Eu bati a legenda. Naquela época, o fotógrafo mesmo fazia o texto-legenda, com no máximo quatro linhas. Por não ter seguindo as ordens do chefão, fui mandado embora. Uns 15 dias depois, voltei e era época de carnaval. Fui fotografar o Baile do Municipal, que era uma festa linda, a rigor. O importante do baile do Municipal não era a festa em si, eram as fantasias. Novamente quebrei a cara, não conseguindo fotografar. Eu e meu amigo pegamos as fotos do Cruzeiro, que também era nosso. Pegamos as fotos porque não tínhamos como fotografar. Era no primeiro andar e estávamos lá embaixo. O locutor subia para apresentar, mas a foto tinha que ser de frente e não de baixo. Não acertei chegar lá porque é complicado, até hoje me perco lá dentro. No dia seguinte fui para lá de novo, mas não podia quebrar a cara, se não estava frito. As escolas de samba se apresentavam na Avenida Rio Branco, não era aqui. Antigamente era na Avenida Rio Branco, Antonio Carlos, depois foi para Presidente Vargas, no Sambódramo. Eu me ergui e fiz um bom material, ganhando assim o emprego no Diário da Notícia. Comecei a carreira de jornalista no Rio de Janeiro. Fiquei até meados de 1962, quando fui convidado a trabalhar no Jornal do Brasil. Antigamente, o JB era a elite do jornalismo brasileiro, era uma coisa espetacular. Eu tive medo porque só tinha “cobra”. Comecei a fazer Copa do Mundo, em 1972, no Chile. Depois Olimpíadas. Até hoje venho fazendo isso e outras coberturas.


Formação acadêmica e possível aprendizado com a experiência
Aprendi muitas coisas. O curso de fotografia te ensina a perspectiva. Da um olhar mais plástico. Na Escola de Belas Artes tive mais uma ideia acadêmica, além de plástica da fotografia. Nenhuma universidade ensina a prática. A prática você aprende na pauleira quando você vai cobrir uma matéria na favela, alguma porrada na rua.

Caderno B do JB
O Jornal do Brasil, na década de 60, tinha um caderno dedicado à fotografia, em que íamos as ruas do Rio de Janeiro em busca de um Rio mais carioca. Criaram aquelas pautas. Eram coisas e fatos inusitados, cotidiano do Rio. Com o jornal tablóide mudou muito por ter diminuído de tamanho. O JB foi a grande escola do jornalismo brasileiro. Passaram grandes nomes do jornalismo, como Carlos Drummond de Andrade, Antonio Callado, Zuenir Ventura, Ana Maria Machado, Otto Lara Resende, entre outros. Hoje é um jornal de maior respeito.


Suas fotografias
Tem fotografia que dá mais trabalho que outras para produzir. No caso de fotos tiradas em tiroteio, você tem que se safar e sair bem, isso é um problema que dá mais dor de cabeça. Você tem que sair vivo dali, mas não deixando de fotografar. Não diria que tenho fotos de maior preferência porque cada pessoa tem um olhar ao fotografar, mas gosto de fotografias pela simplicidade, pelo inusitado. A foto do Vinicius foi tirada no dia do aniversário dele para matéria do caderno B. Chegando lá, ele estava enchendo a cara de cachaça e uísque, mas eu tinha horário para entregar. E lá pra tantas, falei que precisava fazer uma matéria com ele, tendo que ser fotos diferenciadas. Até o momento não tinha. "Já bati foto de você bebendo, cantando violão com Chico e com Tom, e beijando sua mulher Marquita. Não quero uma foto deste tipo". Eu não esperava, ele levantou e agarrou o Tom e o Chico e ficaram deitados ali. E dali eles não levantaram porque já estavam doidões. É uma foto premiada, está no Museu.

Fotos premiadas
Eu não tenho essa coisa de me levar pela premiação. Eu também não tiro partido de ter uma foto premiada, para mim é a mesma coisa. Eu acho ótimo, mas não significa que eu vá me vender e conquistar alguma coisa por aquela foto ser premiada. Para aquelas fotos que foram premiadas, maravilha, mas poderia ser sua, dele. Não fico tirando méritos e contando vantagens.

Por Regiane Esteves e Ana Cristina Ramalho

terça-feira, 9 de junho de 2009

Quiz


Nasceu no Rio de Janeiro.
É jornalista, escritor e crítico musical.
Trabalhou no Caderno B numa época em que era o único repórter homem. Benditas Sejam as Moças!
Já foi Em busca do Borogodó Perdido e quis saber O Que as Mulheres Procuram na Bolsa.
Hoje? É Gente Boa.

A resposta será divulgada em breve, no Falando do B.


Por Amarilis Brandão, David Trindade e Karina Mattos.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

3 anos de Bzão em Julho


Ele é topetudo, tem por volta de uns 18 anos de idade e acabou de entrar na faculdade. Tem uma banda de rock, usa sempre uma camisa preta com a letra B e leva um estilo de vida alternativo. O querido Bzão, personagem Caderno B do Jornal do Brasil, criado pelo quadrinista Pedro de Luna, completa 3 anos no dia 16 de Julho.O personagem foi criado para homenagear o Dia Mundial do Rock, comemorado sempre em 13 de julho, quando editor do Caderno B, o jornalista Mario Marques começou a escrever a coluna BdeBanda (que também dá nome a um festival anual para bandas independentes).As tiras do personagem costumavam sair uma vez por semana na BdeBanda no Caderno B até agosto de 2007. Mas Mario Marques, resolveu publicá-lo de segunda a sexta. As tiras do Bzão também são divulgadas na internet além do Caderno B e também em exposições em shows de rock. O personagem já esteve em festivais de rock no Acre, em Rondônia, Cuiabá e no Rio.


Tropa de Sucesso

Nos anos 60 e 70, o Caderno B contava com um time pesado de colaboradores. Eram tantas estrelas que se estivessem em um plantel, seria memorável como um saudoso time de 81.
Aqui estão listados alguns deles:


Trivial
Zózimo
Fernando Sabino
Rubem Braga
Luis Orlando Carneiro
Pedro Mulles
Dácio de Almeida
Mario Pedrosa
Julio Hungria
Valério Andrade
Roberto Quintaes
Arnaldo Saraiva

Literatura
Carlos Drumond Andrade
Clarice Lispector
Lago Burnet
Hélio Pólvora
José Carlos de Oliveira

Artes
Ferreira Gullar
Walmir Ayala
Harry Laus

Musica
Carlos Eduardo
Renzo Massarani
Mauro Ivans
Juvenal Portela

Mulher
Mirian Alencar
Gilda Chataignier
Celina Luz

Religião
Martins Alonso
Jehovanira Sousa

Ciências
José Itamar de Freitas

Cinema
José Carlos Avellar

Televisão
Fausto Wolff

Teatro
Ian Michalski

Agatha Christie, a "Rainha do Crime"

Primeira Página do Caderno B: Segunda-feira, 13 de janeiro de 1976, a morte de Agatha Christie. Depois de aniquilar multidões de personagens que povoaram as páginas de quase uma centena de livros publicados a partir dos anos 20, a escritora inglesa Agatha Christie morreu de causas naturais em sua residência, nos arredores de Londres e aos 85 anos.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Tarcísio Holanda, Repórter especial


Tarcísio Holanda, que entrou para o Jornal do Brasil em 1963, contou para o Falando do B sobre seu teste para ingressar no jornal, além de matérias que escreveu para o Caderno B.
“Para ingressar no Jornal do Brasil, se não me falha a memória, em abril ou maio de 1963, fui submetido a um teste pelo chefe de reportagem, o legendário repórter Jaime Negreiros, que ganhou um Prêmio Esso de Reportagem com a reportagem "Copacabana pode morrer de medo", referindo-se à alta densidade populacionar daquele bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro. Meu teste foi uma reportagem sobre um asilo (localizado no bairro do Catete), que era administrado por um dos pioneiros da gerontologia no Rio e no Brasil , Dr. Mário Filizola, que escreveu um livro clássico sobre gerontologia, 'COMO EMPLACAR CEM ANOS, no qual cita esse meu trabalho. Escrevi uma reportagem de 10 laudas, que foi publicada no Caderno B do Jornal do Brasil, em grande estilo, sobre esse asilo de senhores e senhoras de idade. Era uma matéria triste, de certa maneira, pois as famílias de classe média alta e alta ainda hoje costumam se livrar de mães e pais velhos internando-os nos asilos. pela reportagem, fui admitido no Jornal do Brasil, na classificação mais alta de repórter então existente, Repórter Especial.
Sempre escrevi matérias que foram publicadas no Caderno B, mas eu não trabalhava efetivo na equipe do B. O B publicou algumas reportagens especiais que escrevi - com o senador Filinto Muller, o famoso Chefe de Polícia do Estado Novo, defendendo-se das acusações que lhe foram feitas pelo deputado José Maria Crispin, do antigo PCB, de que torturara presos políticos nos porões da Chefatura de Polícia, que funcionava à Rua da Relação, no centro velho do Rio de Janeiro. O Caderno B também publicou uma grande reportagem que escrevi sobre o marechal e deputado pelo Rio de Janeiro Ângelo Mendes de Moraes, que morava em uma rua antiga de Laranjeiras e era dono de uma coleção de relógios antigos. Mendes de Moraes prestou um depoimento importante sobre a rebelião militar que levou o presidente Getúlio Vargas a se suicidar - ele que era, então, inspetor-Geral do Exército. Acusou o general Zenóbio da Costa, ministro da Guerra, de ter abandonado Vargas. O Caderno B publicou uma matéria por mim assinada sobre a obra do poeta cearense Gerardo de Mello Mourão, que o diretor do JB de então, jornalista e escritor Oto Lara Rezende, mandou fazer. Houve outras matérias, como qualquer pesquisa no Caderno B poderá atestar, mas a minha memória guardou estas.”

Por Daniela Frauches, Guilherme Motta e Jorge Carvalho

1982: Marília Pera é eleita a atriz do ano


Marília Pera foi escolhida a melhor atriz de 1981, pela Sociedade Nacional de Críticos de Cinema, formada por comentaristas especializados que escrevem em jornais e revistas de várias cidades americanas. A eleição deve-se à atuação da atriz em Pixote, filme de Hector Babenco.

Fonte: JB online

quinta-feira, 4 de junho de 2009

1973 - Tarsila do Amaral: A musa ausente

Fonte: JB online

1980 - Show de Sinatra no Maracanã

Drummond fez uma crônica que ilustrou a expectativa carioca em torno da concorrida vinda do cantor Frank Sinatra ao Brasil.
A exaltação da grande platéia, de fãs de diversas partes do Brasil e do exterior, colidiu com o rígido esquema de acesso dado aos profissionais da mídia para a cobertura do show. Somente um fotógrafo de cada órgão de imprensa pode trabalhar no gramado. Aos outros, foram destinados lugares no fosso dos jogadores ou na Tribuna de Imprensa. Nenhum jornalista teve acesso ao gramado.
Mais uma grande matéria do B.
Fonte: JB online

terça-feira, 2 de junho de 2009

Sucesso relâmpago de hoje Susan Boyle na visão de Mario Marques

Esse artigo é bem fresquinho, mas gostei muito de como Mario Marques expressa sua opinião a respeito desses "novos talentos" que surgem do nada e vão para o nada

É preciso ouvir a obra de Chico Buarque para lembrar que Susan Boyle é nada

Mario Marques, Jornal do Brasil

RIO - Esquecíveis, como qualquer produto de entretenimento da internet – sem piedade atropelado pelo fenômeno seguinte – Mallu Magalhães e Susan Boyle entram para os anais da indústria cultural como exemplos de artistas que ganharam fama mais pelo pacote do que pelo conteúdo. Mallu era a menininha de 15 anos que tocava musiquinhas ao violão evocando Bob Dylan e Johnny Cash e namorou (ou namora, ou não) Marcelo Camelo. Susan Boyle era feia, gorda, brega, suburbana e, acreditavam milhões de pessoas, uma cantora genial. Ambas tinham talento médio e soçobraram porque, no fim, isso é efetivamente o que conta. Com a anunciadíssima e certa morte das gravadoras, tais fenômenos acabam virando defesas desvairadas de que, sim, há ainda um caminho para se ganhar dinheiro com música. Equívoco claro. Atemoriza-me o melancólico fato de que não ouço nada de novo que mereça um rodapé de página desde que 2009 recebeu no céu aquela chatíssima saraivada de fogos. Estou a repetir, sem fôlego, os mesmos discos no carro e em casa. Voltando a décadas passadas para limpar o ouvido, hoje quase mouco diante do batalhão de artistas inacreditáveis. E esse retorno é sempre aos mesmos, ao Jobim, ao Joe Jackson, às coisas feitas nos anos 70, ao jazz e, mais recentemente, a Richard Wagner. Por isso, quando pousa na minha mesa um tributo a Chico Buarque, como este Por eles e por elas, série que marca os 40 anos da Som Livre, perco meu parco tempo a ouvi-lo. Mesmo sabendo que as 28 canções aqui relacionadas podem ser ouvidas, boa parte, em songbooks de nosso maior compositor vivo.

Faço aqui uma confissão profissional. Nos anos 90, conhecendo a obra de Chico Buarque superficialmente – alguns discos, alguns clássicos e um sono profundo num show no Canecão com meus pais nos anos 80 – meu editor cismou que eu deveria fazer uma entrevista (oferecida) com o Chico. Sabem os jornalistas que nosso grandioso autor dá entrevistas só quando lança discos a cada cinco, seis anos, e fecha a boca para sempre, mesmo quando se expressa em livros. Meus colegas, todos, especialmente as mulheres, queriam sentar-se diante dos olhos cor de ardósia por quaisquer dez minutos. Mas era eu o felizardo. Meu editor, então, me perguntara qual era meu conhecimento da obra de Chico. E eu, de pronto: “Tenho tudo em casa”! Uma hora depois estava debruçado na estante de MPB da Gramophone, na Gávea, comprando tudo, todos os discos, tudo relacionado a Chico. Eu ainda estava muito mais conectado umbilicalmente com a música pop naqueles tempos. Enfiei-me em casa, não atendi a nenhum telefonema no fim de semana e pus-me a escutar exaustivamente e a entender e assimilar cada disco – e obviamente o que estava sendo posto à prova (As cidades). Fui tragado pelas melodias e, obsessivo, nada mais ouvi nos próximos anos. Ao chegar à entrevista com Chico, no camarim do Canecão, poderia cantar todas as suas músicas, fazer corelações, referências, citar arranjos. Fiz aquela entrevista (e mais uma, seis anos depois, ajudado por Mario Canivello, para uma biografia de Guinga), fui cobrir a pré-estreia da turnê em Juiz de Fora e posto de plantão no show sete vezes! Foi a melhor obrigação da minha vida, a despeito de ter recusado o convite de meu pai a assistir a Tom Jobim ao vivo, ainda moleque. Por isso, ao reouvir as músicas de Chico neste Por eles e por elas, por vezes regojizei-me; noutras, padeci. Diferentemente do dedicado a Djavan, que, com uma exceção ou outra, trazia belas interpretações da obra do autor, este abre portas para quem não tem laço com o compositor.

Puseram no projeto meninas em busca de espaço (Maria Gadu e Monique Kessous), cometeram o crime de botar no troço Fernanda Takai (meu Deus, insistem nela), Monica Salmaso (que a crítica paulista adora, e até o pessoal do Trapiche Gamboa), Zeca Baleiro (qual o link?) e, como sempre, Ivete Sangalo (quando não é ela, é Claudia Leitte ou Daniela Mercury, alguma baiana tem que ter). Inserções que me remetem diretamente aos terríveis tributos ao vivo cometidos pelo Multishow no fim da década de 90/começo desta.

Se eu retratasse a compilação apenas por este último parágrafo, porém, seria injusto. Conto que os grandes estão aqui neste disco duplo também. Cássia Eller (Partido alto), Clara Nunes (Apesar de você), Nara Leão (Olhos nos olhos), Elis Regina (Atrás da porta) e um dueto de Maria Bethânia com Alcione (O meu amor). Entre os homens, Wilson Simonal (A banda), Caetano Veloso (Samba e amor), Milton Nascimento (Beatriz), Zeca Pagodinho (A Rita) e até o encontro solene de Renato Russo e Hélio Delmiro (Gente humilde).

Num tributo a Chico Buarque, diferentemente de alguns outros a que prefiro me abster, o que vale aqui é reapresentar a uma geração um autor que, de forma quase sagrada, construiu um manancial de canções que fazem corar os que têm certeza de que Susan Boyle e Mallu Magalhães são exemplo de talento.


Entrevista: Diana Aragão

No JB

Trabalhei 14 anos, de 1973 quando entrei como estagiária até 1987, quando pedi demissão pra trabalhar no Segundo Caderno de O Globo a convite do meu ex-editor do B, o saudoso Humberto Vasconcelos.


Matérias para o B


Todas nós fazíamos de um tudo: o dia-a-dia da cultura, funéreos, etc. Mas o meu forte mesmo, como fiquei conhecida até hoje, foram as reportagens nas áreas de música e TV, além de acumular com críticas de shows/discos/TV me revezando com a Maria Helena Dutra em suas férias e assumindo depois da sua saída do B. Foi uma indicação do crítico de teatro do B até hoje, o Macksen Luiz.

O JB para sua carreira


Foi, sem dúvida, uma das melhores épocas da minha vida profissional e pessoal, pois além do reconhecimento no trabalho, foi o local onde fiz meus grandes e melhores amigos até hoje, não só com as queridas “meninas do B” mas com o povo do jornal como um todo, pois a redação era muito unida.
Repercussão das matérias

A repercurssão de qualquer matéria no B, não só minha, mas dos coleguinhas era enorme, porque realmente ele ditou modas e costumes, era uma “bíblia” da época, um foco de resistência cultural. Tenho o maior orgulho até hoje de ter trabalhado no que considero o período áureo do JB como um todo, vale frisar.


Histórias


Existem 500 mil histórias interessantes porque – repito – cobríamos de A a Z. Dos irmãos Veloso, Chico Buarque, Manoel Carlos, fundação do Grêmio Recreativo Escola de Samba Quilombo com mestre Candeia à frente, os também mestres Cartola e Nelson Cavaquinho, o Free Jazz, o Projeto Pixinguinha. Um dia você estava na piscina do hotel Nacional entrevistando o Sonny Rollins e vendo o Chet Baker sentado na escada, sozinho, comendo um chocolate ou entrevistando Gal Costa. Ou Maria Bethânia em sua casa das Canoas. No outro dia estava no Jardim América conversando com Nelson Cavaquinho ou no Buraco Quente, da Mangueira, com Cartola. Ou ainda vendo a minha Mangueira ser supercampeã na inauguração do Sambódromo e quase ser esmagada na abertura da Praça da Apoteose, no mesmo Sambódromo, para shows (aberto com Milton Nascimento). Ou comício das Diretas Já na Candelária, os shows de primeiro de maio no Riocentro. São muitas histórias...


Emoção


O JB e o Caderno B foram marcantes na minha vida e fico muito emocionada com as inúmeras lembranças, de amigos que já morreram e por isso passo meio batida pra não chorar....

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Vicente Senna e a seleção canarinho

"Trabalhei 27 anos no JB, mas nunca no B. No entanto, convivi muito com os colga de lá. Nos bons tempos, o JB era uma casa só, todo mundo se ajudando. Mas me lembro de uma boa história entre o esporte e o B. Foi na Copa do Mundo de 1992, quando o Brasil foi eliminado pela Itália. Se vencesse, iria pra decisão do título. Foi um trauma, porque a seleção de Zico, Falcão, Júnior, etc, é considerada uma das melhores já formadas no Brasil. Nós, do Esporte, roubamos a crônica do Drummond, que sairia no B, falando da derrota da seleção canarinho. O título era 'Perder, ganhar, viver'. Fizemos um belíssima capa do caderno de Esportes. Saiu apenas a crônica do Drummond, emoldurando um desenho do escritor acariciando um canarinho, feito pelo Chico Caruso."

Eis a crônica:

Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para a alegria; vi o técnico incansável e teimoso da Seleção xingado de bandido e queimado vivo sob a aparência de um boneco, enquanto o jogador que errara muitas vezes ao chutar em gol era declarado o último dos traidores da Pátria; vi a notícia do suicida do Ceará e dos mortos do coração por motivo do fracasso esportivo; vi a dor dissolvida em uísque escocês da classe média alta e o surdo clamor de desespero dos pequeninos, pela mesma causa; vi o garotão mudar o gênero das palavras, acusando a mina de pé-fria; vi a decepção controlada do Presidente, que se preparava, como torcedor número um do país, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e nacional, depois de curtir tantas desilusões de governo; vi os candidatos do partido da situação aturdidos por um malogro que lhes roubava um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposições divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da catástrofe que levará talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das eleições; vi a aflição dos produtores e vendedores de bandeirinhas, flâmulas e símbolos diversos do esperado e exigido título de campeões do mundo pela quarta vez, e já agora destinados à ironia do lixo; vi a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de edifícios, removendo os destroços da esperança; vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas... Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória, estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo. Certamente, fizemos tudo para ganhar esta caprichosa Copa do Mundo. Mas será suficiente fazer tudo, e exigir da sorte um resultado infalível? Não é mais sensato atribuir ao acaso, ao imponderável, até mesmo ao absurdo, um poder de transformação das coisas, capaz de anular os cálculos mais científicos? Se a Seleção fosse à Espanha, terra de castelos míticos, apenas para pegar o caneco e trazê-lo na mala, como propriedade exclusiva e inalienável do Brasil, que mérito haveria nisso? Na realidade, nós fomos lá pelo gosto do incerto, do difícil, da fantasia e do risco, e não para recolher um objeto roubado. A verdade é que não voltamos de mãos vazias porque não trouxemos a taça. Trouxemos alguma coisa boa e palpável, conquista do espírito de competição. Suplantamos quatro seleções igualmente ambiciosas e perdemos para a quinta. A Itália não tinha obrigação de perder para o nosso gênio futebolístico. Em peleja de igual para igual, a sorte não nos contemplou. Paciência, não vamos transformar em desastre nacional o que foi apenas uma experiência, como tantas outras, da volubilidade das coisas. Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos ou adquirimos, na maioria das cabeças) o senso da moderação, do real contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da vida. Não somos invencíveis. Também não somos uns pobres diabos que jamais atingirão a grandeza, este valor tão relativo, com tendência a evaporar-se. Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária. Ora, o Telê! Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos. E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano já está na segunda metade?

Crônica publicada no dia 21 de junho de 1982 no Jornal do Brasil.

Os 70 anos de Mario Quintana


Em comemoração aos 70 anos do poeta, jornalista e tradutor Mario Quintana, o Jornal do Brasil publicou, em 30 de julho de 1976, uma entrevista exclusiva com ele, realizada na redação do Correio do Povo.

domingo, 31 de maio de 2009

Crítica do show de Ney Matogrosso


Elizeth Cardoso: perfeição aos 50 anos de carreira - Diana Aragão

Diana Aragão escreve sobre Alicia Alonso

Revirando o baú, a grande jornalista e crítica Diana Aragão encontrou algumas de suas matérias feitas para o B e colabora com o nosso blog!

Mariléa Miranda contando sua história no JB

"Entrei para o JB em 19 de março de 1973, quando eu ainda morava em Brasília, para onde meu ex-marido foi transferido. Trabalhei na Reportagem Geral durante anos e anos, como repórter, cobrindo vários setores, principalmente as áreas de Educação e Justiça, como repórter. Em 1989, fui para a AgênciaJB, a primeira do Brasil e a primeira a ter um jornal online no país. Mas nunca trabalhei no Caderno B. Até poderia, pois quando retornei de Brasília em outubro/novembro de 1973, estava grávida e a Geral exigia muito. As coberturas do B, à época, eram mais amenas, não exigiam o dia-a-dia. Na minha ansiedade de lamber minhas crias (ainda existe esta expressão?), ou seja, ler minhas matérias nas páginas todos os dias, optei por ficar na antiga Reportagem Geral, que depois se chamou Cidade e Editoria Rio."

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Entrevista: Marcelo Tognozzi

Grande repórter do JB, Marcelo Tognozzi conta para o nosso blog algumas aventuras que passou enquanto trabalhava no jornal e sobre suas matérias para o Caderno B.

1) Trabalhou durante quanto tempo no JB?
Trabalhei no JB entre 1987 e 1992.


2) Conte-nos um pouco dessa época no JB e sobre suas matérias no Caderno B.
Fiz várias matérias para o B. Cobri política em Brasília, Economia, geral, dirigi a sucursal de Salvador, fui editor da política na época em que a Luciana Villas Boas era uma espécie de supereditora de Nacional/Politica. Uma delas, de Brasilia, foi muito comentada. Uma entrevista com o Niemeyer que estava trabalhando na cidade na época em que José Aparecido era o governador. Saiu na edição de 9 de março de 1987. Fiz também uma das primeiras entrevistas com o Paulo Coelho numa grande matéria sobre magia. Ele ainda morava num apartamentinho de fundos em Copacabana, se não me engano na Dias da Rocha, e tinha publicado "O Diário de um Mago". Capa do B, a matéria sobre o malandro Moreira da Silva, com mil histórias. O promotor que usava o carro do traficante, o cara que vendida certidões da prefeitura em plena Presidente Vargas. E por aí vai.


3) Como vê o Caderno B hoje, que foi o pioneiro no jornalismo cultural?
Infelizmente eu não vejo, porque ficou difícil ler o JB diariamente, principalmente aqui em Brasilia. O jornal mudou muito e perdeu o peso de formador de opinião.

4) O que significou para sua carreira trabalhar no JB?
Significou muito, porque naquela época trabalhar no JB significava status profissional. Era um time de primeira, o melhor do jornalismo carioca. Aprendi muito, principalmente a não abrir mão de investigar, ouvir os dois lados, apurar fundo. Não havia denúncia publicada sem comprovação.

5) Lembra-se de alguma história interessante que tenha acontecido enquanto trabalhava no B?

Lembro sim. Era 1º de maio de 1989. Eu fazia parte da editoria de reportagem especial, mais conhecida como swat, comandada pela Ruth de Aquino. Fui cobrir a comemoração em Volta Redonda. No ano anterior a CSN fora invadida por tropas do Exército durante uma greve e três operários morreram no tiroteio. Havia muitos políticos, como o Brizola e o Prestes. O Niemeyer fez um monumento em homenagem aos operários mortos, um monumento lindo que estava sendo inaugurado. Fizeram aquela solenidade bonita, discursos, coisa e tal. Na hora de voltar para o Rio, descobri que o nosso motorista estava sem dormir há dois dias. Liguei para o JB e disse que não iria voltar, porque não achava justo me arriscar com um motorista sonado na Serra das Araras. A Ruth autorizou dormir no Hotel Bela Vista. Passei a matéria por telex e o fotógrafo, Marco Antonio Teixeira, mandou seu material por telefoto (não tinha internet). A telefoto tinha uma barulinho típico: íííííííííííííí. Às 3h20 da manhã acordei com um estrondo. Minha cama sacudiu. Uma bomba mandou pelos ares o monumento do Niemeyer por obra e graça de um comando terrorista ligado ao serviço secreto do Exército. O motorista não acordou. Tivemos que arrombar a porta do quarto para pegar a chave do carro. Estávamos a uns mil metros do local e os vidros das janelas estilhaçaram com a força da explosão. E o cara roncava o sono dos justos... Eu era o único jornalista ali. Cheguei no local, comecei a apurar a praça onde ficava o monumento, tinha muita fumaça e um cheiro forte de enxofre. Tudo deserto, sem viva alma. O monumento - ou o que restou dele - estava no chão. Liguei para a Rádio JB. Ninguém atendia. Tinha um puta furo e não podia colocar no ar. Isso dá uma angústia desgraçada. Depois de várias tentativas liguei para a casa do Tim Lopes, meu arquiamigo de décadas. Passei o lide curto e grosso, porque só tinha uma ou duas fichas e a ligação do orelhão podia cair a qualquer momento (naquela época orelhão era movido a ficha). Foi o Tim quem conseguiu passar a notícia que a Rádio deu em primeira mão, furando todo mundo. Horas depois Volta Redonda virou um formigueiro de repórteres e fotógrafos, mas só nós tínhamos uma testemunha, a qual foi devidamente escondida numa fazenda em Piraí. No dia seguinte, um alto-forno da CSN explodiu sem qualquer motivo aparente. Dois operários morreram carbonizados. O que era para ser uma cobertura de um dia virou um plantão de um mês. Até hoje, 20 anos depois, os culpados não foram identificados. A identidade da nossa testemunha nunca foi revelada.


Fiz também uma matéria fantástica com o Expedito Filho, em 1987. Foi manchete. Era sobre uma pseudo associação de coronéis e tenentes coronéis do Exército que servia de fachada para um golpe contra o Sarney. A matéria foi publicada num domingo. No fechamento da edição de segunda, o Zueinir estava no comandando da redação quando vários tiros foram dados nas janelas do JB. O atirador estava num carro estacionado no viaduto de acesso à Ponte, sentido Rio-Niteroi. Zuenir ficou branco, as pernas bambas, mas ainda teve forças para cravar a manchete daquela edição: Tiros no JB.

Quanta felicidade!

Esse trecho retirado do texto "Adeus, vou me embora!", de Clarice Lispector, mostra a grande afinidade que a escritora tinha ao escrever no caderno b. E relata a aproximidade que ela estabelecia com seu publico leitor

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Evandro Teixeira e o Caderno B - II


Gostaria de acrescentar mais uma das ilustres fotografias de Evandro Teixeira, o Mestre do Fotojornalismo.
Evandro registrou imagens da primeira visita do Papa João Paulo II ao Brasil.




"O Papa deve ter recebido alguma mensagem para não contrariá-lo no exercício da profissão".

"Até hoje ninguém sabe se Evandro tem algum acordo com Deus para demonstrar tanta sensibilidade numa atividade tão difícil que é o fotojornalismo. Evandro consegue, e o Papa deve ter recebido alguma mensagem para não contrariá-lo no exercício da profissão.

Aliás, falando em Papa, Evandro talvez seja o único fotógrafo no mundo para quem Sua Santidade toma a benção e se curva, atendendo aos seus pedidos, para deixar que sua arte seja exercida em toda plenitude.

Isso pode parecer exagero, mas não é. Era do conhecimento apenas do meio jornalístico o que aconteceu com o Evandro por ocasião da visita do Papa João Paulo II ao Brasil, em 1980. Quando o Papa se ajoelha para beijar o chão, na chegada ao Galeão, ainda na pista, Evandro perde a foto e não se faz de rogado e grita: "Repete aí, ó Seu Papa". O que é pior, ou melhor, o Papa espantado repete. Evandro então faz a foto e com um sorriso malicioso, sorriso daquelas pessoas que têm cumplicidade com Deus, diz; "A gente tem que tentar sempre a melhor foto. Até o Papa sabe disso". Até a algum tempo, se alguém comentasse isso fora do meio, iam dizer que é mentira. Não é. Tudo foi confirmado e se tornou público com a matéria do Caderno B do Jornal do Brasil de 09 de abril de 2000.

Dessa maneira, expor o sagrado ficou fácil. Percebemos isso quando vemos a foto do Papa olhando a mão que surge do nada, querendo mostrar que aquele que ela está procurando é o fotógrafo escolhido e parece que o Papa pergunta: "Quem é ele e o que ele tem que eu não tenho?". Deus responde: "Ele tem máquina fotográfica e é o Evandro Teixeira. Precisa mais?".


De repente, morreu: João Guimarães Rosa


Valéria Fernandes - matérias "saborosas" para o B


A jornalista conta um pouco da época em que trabalhou no Caderno B: "Naquela época - anos 80 - raramente assinava-se matéria no primeiro caderno. Só as especiais, ou dominicais, como chamávamos. Escrever no B, além de ter o nome no jornal e dividir o espaço com colunistas e escritores renomados, como Drumond e Ferreira Goulart, significava poder trabalhar o texto e escrever muito sobre coisas inusitadas. Fiz algumas matérias bem "saborosas" sobre o envolvimento das escolas de samba com o jogo do bicho. Também era comum escrevermos em dobradinha. Lilian Newlands era parceira constante nesse tema."

Caderno preto

Caderno B, década de 70, Maria Lúcia Ragel á direita

A jornalista Maria Lúcia Rangel trabalhou no caderdo B na década de 70, no auge da censura. “Nós tinhamos um caderno preto, imposto pelos censores, com nomes que não podiam ser citados,” conta Maria Lúcia. Um deles, era o Chico Buarque - tanto que entrevistei Julinho da Adelaide, nome que ele inventou para poder falar de sua obra na imprensa.

"Nós eramos jovens, indignados e estimulados pelo grande número de leitores que o jornal tinha na época,” lembra. “Mas o principal é que os editores, como o Humberto Vasconcellos, nos davam toda liberdade para escrever.”

fonte: http://www.luciaguimaraes.com.br





quarta-feira, 27 de maio de 2009

Meninas do Caderno B

A condessa Pereira Carneiro herda em 1954 o Jornal do Brasil, e marca na história da empresa importante reforma editorial, gráfica e textual, quando aparece criações publicadas até hoje, como o Caderno B.
O B divulga assuntos de cultura tratados com muita invenção, mas sua peculiaridade foi ser escrito por jornalistas. Lá mulheres escrevem para mulheres. As gerações 60-80 vivem a crescente urbanização e número elevado de brasileiras trabalha fora de casa. Com a regulamentação do Jornalismo, elas passam a disputar lugar com o gênero oposto, e a feminilidade abre espaço na divulgação de cultura do JB; como diziam, eram as “meninas do B”, que participam do movimento por direitos de cidadania e igualdade nos anos 80. Mas a tradição do JB nomeia homens para postos de destaque, nenhuma delas ocupa a editoria nesse período.

Christine Ajuz: a estagiária em pânico

Christine Ajuz deu o seu depoimento ao nosso blog e contou sobre a primeira reportagem em que assinou uma matéria no Caderno B. Obrigada pela colaboração!




Mme. Kandinsky e a estagiária em pânico


"Comecei meu estágio no Jornal do Brasil no dia 13 de agosto de 1973, na Reportagem Geral. Era aluna de Jornalismo da PUC e ainda tinha metade do curso pela frente, mas uma experiência anterior no Diário de Notícias, entre março e agosto do mesmo ano, me dera jogo de cintura para enfrentar sem sobressaltos as pautas mais exigentes daquele que era, à época, o jornal preferido dos intelectuais e da elite carioca. Tirava de letra as mais variadas "coberturas": acompanhar casos famosos na Justiça, entrevistar autoridades, noticiar da praia lotada de domingo em Ipanema ao buracão da Light no dia mais quente do ano em Realengo. Eu caprichava no texto, mas sabia que não precisava me preocupar demais: estagiário não assinava matéria.

Ainda não completara dois meses na casa quando a subeditora do Caderno B, Marina Colasanti, adentrou o salão da Reportagem Geral pedindo socorro ao chefe, Armando Strozemberg: "Por favor, amigo, preciso de um repórter que fale bem o francês para entrevistar a viúva do pintor russo Kandinsky. Ela está de passagem pelo Rio, vinda de São Paulo, onde foi para a Bienal de Artes Plásticas. É russa, está bem velhinha, e fala um francês com forte sotaque". Quando Armando me indicou pra missão, quase tive uma síncope: o Caderno B era o suprassumo, o patamar mais alto do JB, o mais sofisticado caderno de arte e cultura do país, e eu nem sabia direito quem era Kandinsky!!!! Imagine entrevistar uma senhora de idade, com dificuldades de articulação, falando uma língua que não era a dela - muito menos a minha! - sobre um assunto que eu desconhecia! Pensei que fosse desmaiar, mas meu chefe nem se abalou: "Vai pra Pesquisa", disse ele, e obedeci.


Entrei ofegante no Departamento de Pesquisa e expus meu problema aos colegas. Em cinco minutos tinha diante de mim um farto material sobre Wassily Kandinsky (1866-1944), "pintor e teórico russo, um dos mais importantes pioneiros da arte abstrata", segundo o Dicionário Oxford de Arte. É bem verdade que não houve tempo para aprofundamentos no assunto: a entrevista com a viúva estava marcada para duas horas mais tarde, no Copacabana Palace, e tive pouco mais de 60 minutos para dar uma cheirada no tema e não fazer feio diante dela. Levei cópias xerox do material pesquisado, que fui lendo no banco de trás da velha camionete Rural Willis até a porta do hotel. Pela primeira vez, estava em pânico, completamente insegura, e agradeci a Deus quando me abriu a porta do quarto uma senhora de 80 anos, pequena, um pouco curvada, com problemas de visão: ela certamente não notaria o estado de nervos em que se encontrava sua entrevistadora.


A conversa durou mais de uma hora, com Dona Nina muito solícita, me oferecendo comidas e bebidas, mostrando fotos antigas e livros com reproduções de quadros belíssimos de Kandinsky, de quem falava como se já não se tivessem passado três décadas de sua morte. Ela estava feliz com a homenagem que a XI Bienal de São Paulo prestava ao marido, mas reclamou muito do tempo chuvoso no Rio, que há cinco dias atrapalhava seus planos de turista. Gostei muito dela, e depois daquele encontro comecei a me interessar seriamente por artes plásticas: desde então, passo a maior parte do tempo dentro de museus e galerias nas minhas viagens, compro todos os catálogos das exposições que visito, tenho uma bela coleção de livros de arte, sou apaixonada por pintura flamenga e tenho um carinho todo especial por Wassily Kandinsky, de quem vi obras maravilhosas no Centro George Pompidou, em Paris, e no Museu Guggenheim, de Nova York. Afinal, por causa dele, no dia 11 de outubro de 1973 eu tive a minha primeira matéria assinada no Jornal do Brasil.

A escritora Marina Colasanti, então à frente do Caderno B, gostou e decidiu assinar o texto da estagiária à beira de um ataque de nervos, que você pode ler logo abaixo.O artista morreu em 13 de dezembro de 1944 - há quase 65 anos - e sua doce viúva foi assassinada 10 anos depois dessa entrevista, aos 90 de idade, em sua villa na Suíça, por um criminoso covarde e até hoje impune. "

Nas cores de Nina
Christine Ajuz


- Kandinsky foi o primeiro a dar à pintura a verdadeira expressão livre - a mais difícil, porque o pintor precisa conhecer perfeitamente o desenho, ter senso de composição e, sobretudo, ser poeta.Tranquila, serena, sem saudosismos, Nina Kandinsky fala do marido, falecido em 1944, como se não o visse apenas há uma semana. Ela chegou ao Rio no domingo, vinda de São Paulo, onde compareceu à inauguração da XII Bienal de Artes Plásticas que, este ano, presta homenagem ao grande artista russo, precursor da arte abstrata, pela primeira vez em exposição na América do Sul.No apartamento do Copacabana Palace, ela reclama do mau tempo, da chuva que lhe atrapalha os passeios pela cidade que "sempre quis conhecer", e relembra, com carinho, sua vida ao lado de um homem que "até sua morte, com quase 80 anos, deu formas, cores e conteúdo novos à arte".


O ARTISTA

Nascido em Moscou em 1866, Wassily Kandinsky começou a ser notícia no início do século, mais precisamente em 1910 quando passou a representar o quadrado, o triângulo e o círculo em expressão abstrata.- Ele sempre dizia que não se pode fazer a teoria sem antes conhecer a prática, e todo o seu trabalho seguiu esta diretriz.Sua obra dividiu-se em sete fases, cada uma correspondendo a um estilo diferente. Primeiramente, o neo-impressionismo, de 1900 a 1906, e o expressionismo, até 1910, "quando fez sua primeira aquarela abstrata e, no ano seguinte, o primeiro quadro a óleo". Depois, até 1920, o que chamamos de época dramática do abstracionismo, sua fase de explosão, em que retratou cometas, nebulosas, vias-lácteas.- Até 1913, Kandinsky retratava a natureza, ao mesmo tempo em que mergulhava na poesia do abstracionismo. Um dia, ele me disse: "Quando você notar que não é mesmo um poeta, volte à natureza e ela lhe dará o tema". Ele nunca mais retornou à sua antiga temática.De 1920 a 1926, a época arquitetural, mais construída e elaborada; de 26 a 28, a época do círculo; de 28 a 33, a época romântica da arte abstrata, quando parte então para Paris e lá se estabelece até sua morte, em 1944. Para Nina, a época parisiense foi a mais rica "em expressão, forma, conteúdo e cores; a apoteose de sua obra". E conta que ele jamais usou o mesmo vermelho num quadro:- Kandinsky atingiu o mais alto refinamento de cores; ele as estudou durante dois anos, observando os efeitos de uma sobre a outra, e, por isso, sua técnica é impecável.Os 22 quadros a óleo que compõem a sala especial da Bienal de São Paulo, grande parte de sua propriedade, são de uma fase expressionista que já entra na arte abstrata. Essas obras ficarão também em exposição durante 10 dias, em data ainda não fixada, no Museu de Arte Moderna do Rio. Para a viúva do artista, "a homenagem brasileira prestada a Kandinsky, através da Bienal de São Paulo, se torna ainda mais importante pelo interesse que se vem demonstrando por sua obra no Brasil".